Sites que ajustam redações feitas por inteligência artificial despertam alerta de educadores
Surgiram sites que usam inteligência artificial para “humanizar” textos produzidos por outros sistemas e prometem neutralizar sinais que identificam material gerado por máquinas. A estratégia ganhou visibilidade em vídeos nas redes sociais, mas professores e especialistas em ensino afirmam que os recursos não apagaram vestígios de automação nem resolvem o problema pedagógico associado ao uso da IA para substituir a escrita dos alunos.
O alerta vem em meio a experiências que demonstram a eficácia limitada dessas ferramentas. Em um teste do G1, uma redação gerada pelo ChatGPT no formato exigido pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) sobre o tema de 2025, “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, foi inicialmente identificada por um detector como totalmente produzida por IA. Após passagem por dois desses “humanizadores”, o mesmo detector apontou redução nos indícios de automação para cerca de 80%, mas não houve eliminação completa nem transformação do texto em algo que se assemelhe claramente a uma produção humana.
Os educadores ressaltam que, mesmo quando traços formais da IA são atenuados — como repetição de vocabulário, excesso de formalidade ou padronização de parágrafos —, a estrutura argumentativa e a sequência de ideias costumam permanecer praticamente intactas. Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações da Arco Educação, afirma que o principal prejuízo é a perda do processo de escrita: quando a IA elabora teses, argumentos e conclusão, o estudante pode entregar uma redação sem desenvolver a capacidade de escrever por si próprio.
Professores listam sinais que costumam denunciar redações com uso de IA mesmo após “humanização”: períodos curtos que limitam o desenvolvimento das ideias; generalizações e afirmações baseadas no senso comum; uso de marcas da oralidade entendido como “humanização” pela ferramenta; ausência de exemplos concretos ligados ao cotidiano; e parágrafos com tamanho padronizado. Essas características tornam o ritmo e a construção das frases repetitivos e pouco naturais, além de manter a superficialidade da argumentação.
Um caso citado para ilustrar a detecção ocorreu em uma universidade americana: o professor Jason Gibson aplicou um método para identificar avaliações produzidas com IA e reprovou 32 de 35 alunos. O episódio é usado como exemplo do desafio de conter a substituição da prática autoral.
Especialistas em redação também apontam riscos de credibilidade quando a IA utiliza repertórios imprecisos ou inventa fatos e dados. Para Fernanda Becker, analista pedagógica da plataforma Redação Nota 1000, a escrita é um percurso de aprendizagem que envolve formação de repertório, argumentação própria e desenvolvimento de estilo — etapas que são prejudicadas se a máquina assume a produção.
A despeito das ressalvas, professores reconhecem usos pedagógicos para a tecnologia: a IA pode analisar redações nota máxima, sintetizar critérios de avaliação de bancas, sugerir repertórios socioculturais (filmes, livros, músicas) e revisar textos autorais, desde que a ferramenta não substitua o aluno no processo criativo. “A IA pode ser uma boa tutora, desde que ela não se transforme em autora”, resume Ademar Celedônio.
Claude costuma ser mais usado por empresas e o ChatGPT, por usuários privados, segundo observações do mercado sobre plataformas de IA.
O debate entre a busca por meios de burlar detectores e a defesa do exercício autoral segue em destaque entre educadores, que incentivam práticas que privilegiem o desenvolvimento da escrita dos estudantes.
Com informações de G1




