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segunda-feira, outubro 12, 2026

Fim da patente da semaglutida em 2026 intensifica disputa entre China, Índia, EUA, Canadá e Brasil

A expiração da patente da semaglutida em março de 2026 em mercados chave aumentou a competição global por medicamentos emagrecedores, envolvendo produtores da China, Índia, Estados Unidos, Canadá e Brasil.

Os fármacos à base de incretinas, como os agonistas de GLP-1 (semaglutida) e os duplos agonistas de GLP-1 e GIP (tirzepatida), transformaram o tratamento da obesidade e criaram um dos segmentos mais dinâmicos da indústria farmacêutica. Projeções de vendas foram revisadas rapidamente: em 2023 esperava-se US$ 100 bilhões no início da próxima década; em 2024 a estimativa subiu para US$ 150 bilhões, refletindo demanda muito superior ao previsto.

Ao mesmo tempo, o setor enfrenta o chamado “Abismo de Patentes 2.0”, com vencimentos simultâneos de exclusividades entre 2025 e 2029. A perda de exclusividade pode abrir espaço para genéricos e biossimilares e acarretar perdas líquidas globais estimadas em US$ 90 bilhões.

A patente da semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic, pertence à dinamarquesa Novo Nordisk e vence em março de 2026 na China, Índia, Turquia, Canadá e Brasil. Esses países reúnem cerca de 40% da população mundial e aproximadamente 33% das pessoas com obesidade, o que torna a coincidência das datas de expiração um desafio estratégico para a empresa.

A situação da Novo Nordisk se agravou após o desempenho abaixo do esperado de seu mais recente fármaco, o CagriSema, e com o sucesso do concorrente Zepbound (tirzepatida) da Eli Lilly. Em reação, as ações da Novo Nordisk caíram, enquanto a capitalização de mercado da Eli Lilly ultrapassou US$ 1 trilhão.

Parcerias e ofertas emergentes

No fim de 2025, o laboratório indiano Lupin, com sede em Mumbai, fechou acordo com a chinesa Gan & Lee Pharmaceuticals (Pequim) que garante ao Lupin direitos exclusivos de venda e distribuição na Índia de uma substância em testes, a bofanglutida. Indicada para diabetes tipo 2, a bofanglutida apresentou resultados de perda de peso comparáveis ou superiores à semaglutida e exige apenas uma injeção a cada 14 dias.

A Lupin é a quinta maior fabricante de genéricos nos Estados Unidos e a oitava no mundo, com presença em mais de 200 países, entre eles Rússia, Japão, Estados Unidos, México e Brasil, e registrou lucro de mais de US$ 80 milhões no segundo trimestre de 2025. A parceria com a Gan & Lee reforça a estratégia da Lupin no Brasil por meio da MedQuímica (Juiz de Fora, Minas Gerais), adquirida pelo grupo em 2015.

A Gan & Lee, por sua vez, negocia com o governo brasileiro projetos de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) e colaborações futuras envolvendo drogas emagrecedoras como o GZR4 e a bofanglutida.

Outras movimentações incluem colaborações entre Lupin e Biocon em alguns mercados e projetos com a Viatris/Mylan. A Biocon é a maior farmacêutica da Índia, responsável por movimentação superior a US$ 1 bilhão em 2025. No Brasil, a Lupin firmou parceria com a Biomm (Nova Lima, Minas Gerais), controlada pela Biocon, para comercializar um medicamento oncológico; porém, os grupos podem atuar como concorrentes localmente. No segmento de GLP-1, espera-se que Lupin/MedQuímica ofereçam bofanglutida, enquanto Biocon/Biomm podem comercializar semaglutida genérica.

Formas de administração, mercado e canais de venda

O medo de agulhas é relevante: estudo da revista PLOS One (2022) indicou que 63,2% dos adultos relatam algum grau de medo de agulhas, com impactos sobre a aceitação de procedimentos como coleta de sangue e vacinas. Essa rejeição estimula pesquisas por versões orais. A Novo Nordisk lançou o Wegovy em comprimido em janeiro de 2026. A Eli Lilly ainda não obteve, até o momento, aprovação do FDA para seu comprimido orforglipron; a expectativa mais otimista aponta para março de 2026.

As bulas indicam diferença de conveniência entre as opções orais: o medicamento da Lilly pode ser tomado a qualquer hora, com ou sem alimentos; já as semaglutidas orais da Novo Nordisk (Wegovy para obesidade e Rybelsus para diabetes tipo 2) exigem estômago vazio e intervalo de 30 minutos antes de comer ou beber. Estudos de custo-efetividade mostram dificuldade de comparação entre apresentações orais e injetáveis devido às bases distintas de avaliação. O preço final também deve variar conforme descontos de seguradoras e modelos alternativos de venda direta e plataformas eletrônicas.

Projeções indicam que o mercado global de medicamentos emagrecedores alcance US$ 95 bilhões em 2030, com 24% desse total (cerca de US$ 23 bilhões) vindo das versões orais. O banco de investimentos Goldman Sachs projeta que o comprimido da Eli Lilly deverá conquistar 60% desse segmento oral, ante 21% do produto da Novo Nordisk.

Entre 2024 e 2025, grandes farmacêuticas passaram a adotar programas de venda direta ao paciente (DTP), combinando preços em dinheiro, telessaúde e entrega domiciliar — exemplos incluem NovoCare Pharmacy (Novo Nordisk), LillyDirect (Eli Lilly), Eliquis 360 Support (Bristol Myers Squibb), Cosentyx DTP (Novartis), PfizerForAll, AstraZeneca Direct e AmgenNow. O marketing do Wegovy tem foco em consumidores que pagam do próprio bolso. Na J.P. Morgan Healthcare Conference, o CEO da Novo Nordisk, Maziar Mike Doustdar, afirmou que medicamentos para obesidade se adaptam melhor ao modelo de venda direta e declarou que uma de suas metas é dominar canais diretos ao paciente e pagamentos em dinheiro.

Outros desenvolvimentos incluem um spray nasal à base de semaglutida em testes pela Shanghai Shiling Pharmaceutical, com provável comercialização por plataformas eletrônicas, e menções a atores como a Trump Rx, que promete reduzir preços e priorizar retornos para os Estados Unidos.

Carlos Roberto Oliveira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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