Retorno ao escritório pressiona destinos do home office e impulsiona vendas na capital
São Paulo atingiu um recorde histórico de compra e venda de imóveis em 2025: foram 90.402 escrituras registradas nos cartórios de notas, volume 49,6% superior ao verificado em 2020, segundo levantamento do Colégio Notarial do Brasil (CNB/SP).
Ao mesmo tempo, municípios que se beneficiaram do avanço do trabalho remoto durante a pandemia registraram queda nas transações entre 2021 e 2025. Itupeva teve retração de 57% no número de escrituras; Cotia, 41%; Indaiatuba, 36%; Atibaia, 31%; São João da Boa Vista, 32%; Peruíbe, 30%; Itu e Itatiba, 28% cada.
O vice-presidente do CNB/SP, Andrey Guimarães Duarte, alerta para a necessidade de cautela na interpretação desses números. “Queda no número de escrituras não é suficiente para entender que há uma saída massiva de moradores. Os dados mostram menor intensidade nas transações imobiliárias após um período de expansão excepcional”, disse. Ele acrescentou que a nova fase do mercado não equivale necessariamente a um retorno completo ao padrão pré-pandemia: “Se fosse simplesmente uma volta ao padrão pré-pandemia, esperaríamos que a capital recuperasse o que perdeu e os destinos do home office retornassem aos níveis anteriores. Não foi exatamente isso que aconteceu”.
O movimento de saída da capital observado no início da pandemia ocorreu quando o fechamento de escritórios em 2020 tornou menos relevante a proximidade entre casa e trabalho. Entre 2021 e 2025, todas as regiões do estado apresentaram aumento expressivo nas escrituras em 2021, com altas entre 33% e 36% em relação a 2020, conforme o CNB/SP.
Com a retomada de exigência de dias presenciais por muitas empresas, a distância entre moradia e local de trabalho voltou a pesar nas decisões imobiliárias. Estudos citados na apuração mostram que profissionais de construção civil e engenharia trabalham, em média, 4,8 dias por semana no escritório, e no setor de serviços a média é de 3,3 dias (Robert Half). Pesquisa da WeWork com a Offerwise indica que 63% dos profissionais trabalham presencialmente atualmente e que, para 79% deles, isso é determinado pela empresa.
A plataforma Gupy registra que vagas presenciais e híbridas já superam as posições totalmente remotas, e que as oportunidades 100% remotas vêm diminuindo. A volta ao trabalho presencial tem impacto direto nos custos e no tempo dos trabalhadores: 65% apontam o deslocamento como a principal desvantagem do trabalho presencial e 53% relatam aumento das despesas com a ida ao escritório, segundo a pesquisa da WeWork. Beatriz Kawakami, gerente de negócios da WeWork Brasil, descreve esse efeito como um “custo silencioso” que não aparece diretamente no salário, mas aumenta o desgaste e reduz o tempo livre.
O fim do modelo remoto também tem repercussões nas escolhas pessoais e contratuais. O caso do Nubank, que restringiu o trabalho remoto e passou a exigir encontros trimestrais, foi citado como exemplo de empresa cuja decisão afetou funcionários que se mudaram para outras cidades, compraram imóveis ou assumiram responsabilidades familiares contando com a possibilidade de trabalhar à distância. Apesar das críticas, a política do banco foi mantida.
Enquanto o interior turístico praticamente devolveu os ganhos obtidos no auge do home office e encerrou 2025 com volume de escrituras equivalente a 99,3% do registrado antes da pandemia, o litoral manteve resultado aproximadamente 20% acima do patamar de 2020, mas sem crescimento relevante desde 2023.
Nem todo o interior, contudo, desacelerou. Alguns municípios seguiram crescendo entre 2021 e 2025: Taboão da Serra liderou com alta de 73% nas escrituras, seguida por Bauru (42%), Barueri (26%), Paulínia (19%) e Limeira (14%).
Levantamentos sobre as razões para o retorno ao escritório mostram que muitas empresas associam a presença física a ganhos organizacionais: 68% apontam fortalecimento da cultura, 63% citam melhora da comunicação e colaboração, 59% indicam necessidade de integração e supervisão, 50% relacionam o presencial ao aumento da produtividade e 34% relatam influência de orientações da liderança global (Robert Half). Ao mesmo tempo, 54% dos gestores admitem que maior presencialidade eleva o risco de perda de talentos, e 52% dos trabalhadores considerariam mudar de emprego se houvesse redução da flexibilidade.
O debate entre empresas e profissionais sobre equilíbrio entre flexibilidade, integração e resultados segue em curso, e os dados dos cartórios refletem a transição do mercado imobiliário para uma nova fase marcada pela predominância de modelos híbridos e presenciais.
Com informações de G1




