A rápida adoção de modelos de linguagem, como o ChatGPT, em ambientes escolares expôs uma prática recorrente entre alunos: a terceirização de tarefas escolares por meio de comandos em interfaces de inteligência artificial. Segundo o texto assinado por Cristian Arão, professor de Filosofia na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), essa reação dos estudantes revela um problema estrutural anterior à própria tecnologia: o caráter memorístico e repetitivo do trabalho escolar.
O artigo aponta que, antes da IA, já havia formas de evitar o estudo efetivo — cópia de textos da internet, trabalhos feitos por terceiros, uso de “cola” em provas — e que muitos alunos decoram respostas sem compreensão real, esquecendo o conteúdo logo após a avaliação. Essa dinâmica, segundo o autor, resulta de um modelo pedagógico que organiza o ensino como transmissão de um repertório fixo de dados, fórmulas, datas e definições, avaliando o aprendizado pela capacidade de reproduzir essas informações com exatidão.
Arão retoma críticas de Paulo Freire à chamada “educação bancária”, cunhada na década de 1960, para caracterizar esse formato escolar como um processo de depósito e recuperação de conteúdos, comparável a um algoritmo que estabelece etapas previsíveis de arquivamento e devolução de informações. Na visão apresentada, a inteligência artificial apenas amplia uma lógica já presente: se as tarefas escolares consistem em produzir textos padronizados ou resolver problemas por passos prescritos, modelos de linguagem e sistemas computacionais efetuam essas demandas muitas vezes com maior eficiência.
O autor sustenta que a terceirização do trabalho discente, visível com o uso de chatbots, é sintoma da falência do modelo bancário de ensino. A inquietação provocada pela tecnologia, diz o texto, torna premente um debate sobre o sentido da educação, pois revela que muitas atividades escolares são estruturalmente passíveis de automação.
Como alternativa, o artigo apresenta, em linha com as propostas freireanas, a possibilidade de aproveitar a crise como oportunidade para reformular finalidades pedagógicas: subordinar a técnica a fins humanos, problematizar e apropriar criticamente as ferramentas de IA e deslocar o foco do trabalho pedagógico da memorização para experiências reflexivas. Isso incluiria substituir tarefas baseadas na reprodução de informações por desafios que promovam a formulação de perguntas, interpretação de contextos e construção de argumentos, além de avaliações que acompanhem percursos de investigação, criação e autoanálise.
O texto ressalta que tal movimento exigiria reorganização curricular para cultivar sentido e interesse no aprendizado e que a discussão sobre IA nas escolas deve incluir decisões éticas e políticas sobre a finalidade social da educação, do ensino fundamental à pós-graduação. O autor também observa que existem ferramentas que prometem “humanizar” textos para driblar detectores de IA, mas que professores afirmam que a tecnologia não resolve, por si só, as limitações do ensino.
Cristian Arão é professor de Filosofia na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB). Este texto foi publicado originalmente no site do The Conversation Brasil.
Com informações de G1




