China pode demandar carne bovina brasileira livre de desmatamento, diz compromisso de importadores
Importadores reunidos pela Associação da Indústria de Carnes de Tianjin, que representam cerca de 40% das compras chinesas de carne bovina do Brasil, anunciaram a intenção de adquirir 50 mil toneladas de carne bovina brasileira certificada e livre de desmatamento até o fim deste ano. O volume corresponde a aproximadamente 4,5% do total que os exportadores brasileiros de carne bovina esperam vender para a China em 2026.
O compromisso, liderado por Xing Yanling, sinaliza uma possível mudança nos hábitos de consumo e na disposição de parte do mercado chinês em pagar mais por cadeias de suprimento sustentáveis. A iniciativa ocorre em um momento em que a China tem adotado medidas para reduzir impactos ambientais do comércio: em 2019 alterou a lei florestal para proibir madeira ilegal, em 2023 assinou um acordo conjunto com o Brasil para combater o desmatamento ilegal ligado ao comércio, e, a partir do ano passado, a estatal COFCO assumiu o compromisso de eliminar o desmatamento de sua cadeia de fornecedores.
Especialistas destacam que a carne bovina brasileira é a commodity agrícola mais associada ao desmatamento entre os produtos importados pela China. A floresta amazônica perde centenas de milhares de hectares anualmente, e cerca de 90% dessas áreas são convertidas em pasto logo após o desmatamento, segundo o MapBiomas.
Alguns consumidores chineses, à medida que aumentam de renda, têm demonstrado maior preocupação com a origem dos alimentos. A carne certificada será comercializada com o selo “Beef on Track”, criado pela ONG brasileira Imaflora, que prevê quatro níveis de conformidade conforme rastreabilidade e comprovação de regularização legal das fazendas. Importadores de Tianjin dizem estar dispostos a pagar até 10% a mais por carne de frigoríficos que comprovem que fornecedores não têm ligação com desmatamento — legal ou ilegal — nem com trabalho escravo.
O projeto também aposta na rastreabilidade como resposta a preocupações de segurança alimentar: a delegação de Tianjin demonstrou práticas como uso de códigos QR para ovos, que permitem rastrear o produto até a fazenda, e afirmou que consumidores podem pagar até o dobro por esses produtos.
Entretanto, o potencial impacto enfrenta desafios. O sistema de rastreabilidade do Brasil depende de documentos de transporte de gado que, segundo promotores, podem ser fraudados — prática conhecida como “lavagem de gado” — e melhorias estruturais podem levar anos. No setor, a recepção foi mista: a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) disse apoiar certificações, mas defende que novos selos estejam alinhados aos sistemas existentes para evitar sobreposições e exigências sem infraestrutura pública adequada.
Outra limitação às metas de Tianjin são as cotas de importação impostas pela China para proteger a produção interna. O país estabeleceu um limite de 1,1 milhão de toneladas para este ano; a previsão é de que o Brasil atinja esse teto até o fim do mês seguinte, e qualquer importação além da cota estará sujeita a um imposto de 55%. A China compra mais de 10% da carne bovina exportada pelo Brasil, segundo dados do governo e da ABIEC.
A certificação Beef on Track deve ficar disponível para frigoríficos, supermercados e importadores até o fim do ano. O nível básico do padrão é comparável ao usado pelo Ministério Público Federal para verificar o cumprimento da legislação ambiental e trabalhista por fazendas fornecedoras diretas, e o programa abrange fornecedores responsáveis por cerca de 2,7 milhões de toneladas de carne bovina por ano — cerca de um quinto da produção brasileira e quase o dobro das importações chinesas registradas no ano passado. Até o momento, nenhum frigorífico brasileiro anunciou adoção formal da certificação.
Na prática, a visita da delegação de Tianjin à fazenda Carioca, em Castanhal (norte da Amazônia), também mostrou interesse dos importadores em agregar valor ao produto ligado à proteção da floresta: o fazendeiro Altair Burlamaqui contou que a ideia de vender carne associada à preservação amazônica foi recebida com entusiasmo e apreensão.
Se ampliada, a demanda por carne certificada pode ter impacto relevante nas cadeias de produção, mas o alcance dependerá da capacidade de garantir rastreabilidade confiável e de superar barreiras comerciais e regulatórias.
Com informações de G1




