Leilões de propriedades rurais aumentam com avanço da inadimplência no crédito agro
Leilões de imóveis rurais retomados por credores cresceram de forma acelerada em todo o Brasil, conforme levantamento citado pela Reuters, motivados pela elevação da inadimplência no crédito rural, que já alcança quase um quinto das operações em circulação.
Segundo dados do Banco Central, as dívidas com problemas de pagamento no crédito rural atingiram R$ 171,2 bilhões no início de 2026, mais que quadruplicando em dois anos. A parcela de empréstimos em atraso chegou a 19,6%, ante 5,5% dois anos antes.
Especialistas e produtores apontam fatores como a queda nos preços dos grãos, juros elevados, aumento nos custos de insumos e a ocorrência de eventos climáticos cada vez mais imprevisíveis como causas do aumento de falências e da perda de propriedades rurais. Produtores também se preparam para a possibilidade de um “super El Niño”, que pode reduzir a produtividade das safras e aprofundar a queda de renda no campo. A alta nos preços dos fertilizantes durante a guerra no Irã contribuiu para a redução dos planos de novos plantios.
O Rio Grande do Sul figura entre os estados mais afetados pela inadimplência, após as enchentes de 2024 associadas ao fenômeno El Niño e às mudanças climáticas, aponta estudo publicado em janeiro na revista NPJ Natural Hazards.
Os credores têm intensificado a execução de garantias e levado mais imóveis rurais a leilão. Dados do site Leilão Imóvel mostram que o volume de propriedades rurais leiloadas alcançou 14.219 unidades em 2025, alta de 30% em relação a 2024. As retomadas e leilões realizados por via extrajudicial — processos mais céleres — quase dobraram, somando 2.398 em 2025.
O cofundador do Leilão Imóvel, André Figueiredo, observou que o site passou a acompanhar cerca de 7% mais leiloeiras em 2025, o que reduz a comparabilidade dos números, mas a tendência de piora nas condições financeiras dos produtores aparece de forma clara nos dados fornecidos por grandes leiloeiras desde 2019. Ele ressaltou que as regiões voltadas à produção de soja e outros grãos foram as mais atingidas.
Pedidos de recuperação judicial no setor agrícola subiram 56% em 2025, depois de mais que dobrarem em 2024, segundo a Serasa Experian.
Para o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, “este momento de endividamento no campo é um momento extremamente delicado”. Marcelo Pimenta, responsável pelo setor de agronegócio da Serasa Experian, comentou que produtores ainda tentam se recuperar de choques recentes e listou fatores dificultadores: clima adverso, queda nos preços das exportações agrícolas — especialmente da soja — e a elevação da taxa básica de juros, que passou de 2% para 15% em cinco anos. “A perspectiva para frente não é boa”, disse ele, acrescentando que a incerteza sobre preços das commodities e o risco de novos choques climáticos intensificam os problemas.
Um produtor do Rio Grande do Sul, que preferiu não se identificar, relatou dificuldades com juros “impagáveis” após perdas por eventos climáticos extremos e afirmou que um credor já tomou posse de mais da metade da fazenda da família. “A mudança climática, ela é expressiva, ela é evidente. Nós não estamos conseguindo produzir uma hora por muita chuva e outra hora por muito sol. Então eu te digo assim: o fator clima é o fator que nos colocou nessa posição.”
As informações indicam uma combinação de fatores econômicos e climáticos pressionando a capacidade de pagamento dos produtores e elevando o número de propriedades rurais levadas a leilão.
Com informações de G1




