A população negra já é maioria no Brasil, mas continua sub-representada nos espaços de poder e com renda inferior. Levantamentos do IBGE e dados de pesquisas sociais apontam crescimento na autodeclaração racial nos últimos anos, ao mesmo tempo em que indicadores de trabalho, renda e acesso a cargos de liderança evidenciam desigualdades persistentes.
Quem e o que mostram os números
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, em 2025, 55,5% dos brasileiros se declararam pretos ou pardos. Em Minas Gerais esse percentual chega a 58,6%. O Censo de 2022 indica que, em Uberlândia, 50,8% dos moradores se identificam como pretos ou pardos — 39,8% como pardos e 11% como pretos — e que em favelas e comunidades urbanas o índice sobe para 74,3%.
Tendência demográfica
Entre 2012 e 2025 houve aumento na autodeclaração como preto, que cresceu de 7,4% para 10,4%, enquanto a parcela parda se manteve próxima (45,5% para 45,8%). No mesmo período, a população que se declarou branca recuou de 46,4% para 42,6%. Pela primeira vez menos da metade dos moradores da Região Sudeste se declarou branca. O Censo de 2022 também mostra que, entre os 20,5 milhões de habitantes de Minas Gerais, cerca de 12 milhões são pretos ou pardos.
Renda, trabalho e liderança
Dados do Censo Trabalho e Rendimento do IBGE e da Síntese de Indicadores Sociais de 2025 apontam que trabalhadores brancos recebem remuneração superior à de trabalhadores negros em todos os níveis de escolaridade. Entre profissionais com ensino superior completo, a média salarial de brancos é de R$ 6.547, contra R$ 4.175 para pretos e R$ 4.559 para pardos — diferença que configura, na prática, ganho médio 57% maior para brancos em relação a pretos com o mesmo nível de instrução.
A desigualdade aparece também nas lideranças: diretores e gerentes negros recebem, em média, 34% menos que colegas brancos em funções equivalentes. Apenas 8,6% dos cargos de liderança são ocupados por negros, contra 17,7% entre os brancos. Além disso, quase 46% dos trabalhadores negros estão na informalidade, percentual muito superior ao observado entre brancos.
Setor privado e metas de diversidade
Para Tom Mendes, diretor executivo do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), empresas incorporaram a pauta da diversidade, mas ainda faltam mudanças estruturais. Segundo ele, muitas organizações concentram esforços em programas de entrada e em metas públicas, sem revisar critérios e práticas internas que definem quem é promovido e quem chega a posições de decisão.
Educação e ações afirmativas
Nas universidades, as políticas de ações afirmativas alteraram o perfil dos estudantes. Levantamento do Instituto Sou Ciência citado por pesquisadores indica que a participação de estudantes negros nas universidades subiu de cerca de 17% em 2009 para 49% em 2022. Ainda assim, especialistas alertam que acesso não basta: são necessárias políticas de permanência, acolhimento e combate à evasão.
O professor aposentado da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Guimes Rodrigues Filho destaca também a implementação incompleta da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira: estudos apontam que menos de 30% dos municípios cumprem a norma de forma efetiva.
Impactos cotidianos e relatos
Docentes e pesquisadores ouvidos relatam que o racismo se manifesta tanto em agressões explícitas quanto em ações cotidianas que questionam competência, vigiam ou tratam pessoas de forma desigual em estabelecimentos. O professor Gérson de Sousa, da UFU, ressalta que essas situações deixam marcas psicológicas e podem levar à evasão escolar ou ao afastamento de espaços públicos e profissionais.
O jornalista Marcus Purccino, recém-formado pela UFU, descreve dificuldades financeiras e barreiras estéticas no mercado da comunicação que limitaram suas oportunidades — experiência que, segundo ele, reforça a importância das cotas como mecanismo de reparação histórica.
Indicadores educacionais recentes
Pesquisa do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra), com base na Pnad Contínua, mostra aumento nas taxas de conclusão do ensino superior entre pessoas negras na última década. Entre mulheres negras com mais de 25 anos, a taxa passou de 7,9% em 2012 para 14,9% em 2023; entre homens negros, de 5,3% para 11,2%. Apesar do avanço, a distância em relação à população branca permanece: 30,3% das mulheres brancas e 25,9% dos homens brancos concluíram o ensino superior, contra índices significativamente menores entre negros.
Como denunciar
Em casos de flagrante ou risco imediato a orientação é ligar para a Polícia Militar pelo 190. Outras vias de denúncia incluem Disque Denúncia 181 (Minas Gerais), Disque 100, delegacias da Polícia Civil (presencial ou Delegacia Virtual quando disponível em Minas Gerais), Ministério Público de Minas Gerais, Defensoria Pública e SaferNet Brasil para casos na internet. Especialistas recomendam reunir provas — mensagens, fotos, vídeos, áudios e testemunhas — para fortalecer as investigações. Após a denúncia, a Polícia Civil pode instaurar inquérito; havendo indícios, o Ministério Público pode oferecer denúncia criminal, e a vítima pode buscar indenização por danos morais na esfera cível.
As estatísticas e relatos ouvidos mostram uma contradição persistente: embora a população preta e parda seja maioria, desigualdades estruturais continuam a limitar renda, acesso a cargos de comando, permanência na educação e oportunidades profissionais em todo o país.
Com informações de Paranaibamais




