Novo uniforme da Seleção traz “Brasa” nas meias e reacende debate sobre a origem do nome do país
O lançamento do novo uniforme oficial da Seleção Brasileira pela Nike, na segunda-feira, 23 de março de 2026, incluiu um detalhe que provocou discussão nas redes: a palavra “brasa” bordada nas meias, logo abaixo do logotipo da marca. A escolha estética suscitou questionamentos sobre o uso do termo no contexto esportivo e sobre uma possível ligação etimológica entre “brasa” e “Brasil”.
TRANSMISSÃO: CazéTV
Especialistas em linguística dizem que não há consenso sobre a origem do substantivo “brasil”. Para Ricardo Cavaliere, filólogo e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), existem diversas hipóteses sustentadas por etimologistas. A corrente mais aceita associa o nome do país ao pau-brasil: a madeira de tom avermelhado teria dado origem ao topônimo, sem que isso signifique uma equivalência direta entre “brasa” e “Brasil”. O historiador Capistrano de Abreu é citado como defensor da ideia de que a mercadoria “pau-brasil” substituiu nomes iniciais como “Ilha de Vera Cruz”.
Outra linha de pesquisa, defendida por estudiosos como Joan Corominas (1905-1997) e Volker Noll, relaciona “brasil” ao termo germânico/românico para corantes vermelhos e ao latim “brasa” — usado para designar carvão em brasa — apontando registros de palavras semelhantes em documentos europeus desde o século XII para designar tinturas vermelhas.
Há ainda uma hipótese menos difundida que remete a mapas medievais e à lenda irlandesa de Hy-Brasil, identificada por alguns pesquisadores com termos celtas como “bress”, que significaria “abençoar”, e que aplicaria a noção de ilha lendária anterior à chegada dos portugueses.
No uso contemporâneo do português, levantamentos de corpus linguístico conduzidos por Mark Davies e Michael J. Ferreira mostram que “brasa” aparece em situações relacionadas a fogo, alimentos e utensílios (fogo; carne; pão; receita; ferro; fogão; cebola; alho), sem registros predominantes vinculados ao futebol ou a torcidas da Seleção. Nas redes, entretanto, surgiram publicações satíricas e também postagens pontuais de influenciadores e veículos, incluindo registros da CazéTV em 2025 e 2026 com frases como “É o Brasa abrindo o placar” (vôlei de praia) e “Pra sempre, Brasa” (convocação da Seleção); menções de Pedro Certezas em janeiro de 2026; e uma campanha do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) em 2023 com “É o Brasa”.

O linguista Daniel Gomes da Fonseca observa que o uso esportivo do termo pode ter sido estimulado por iniciativas de comunicação, como a da Nike, mas que não é possível afirmar categoricamente que “Brasa” entrou no repertório coletivo para designar a Seleção. A prática corrente no Brasil continua sendo referir-se à equipe de futebol apenas como “a seleção”, enquanto apelidos tradicionais incluem “canarinho”.
A grafia do nome do país também já passou por mudanças: no século XIX e em documentos como a Constituição de 1824 era usada a forma “Brazil” com “z”. A ABL registra que, em 11 de janeiro de 1897, José Veríssimo propôs oficializar a grafia com “z”, e que a comissão presidida por Machado de Assis só concluiu o debate com proposta de Coelho Neto em 1922. Em 15 de junho de 1931, Getúlio Vargas firmou acordo entre a ABL e a Academia das Ciências de Lisboa para consolidar o uso do “s” — decisão que foi confirmada pela Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945. Países de língua inglesa mantiveram a grafia “Brazil”.
Não existe, portanto, uma conclusão única sobre a origem do nome “Brasil” e o uso de “brasa” como apelido popular para a Seleção é ainda pontual e contestado por linguistas e por levantamentos de uso.




