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sexta-feira, outubro 23, 2026

Por que estudar mais horas nem sempre aumenta o aprendizado, diz especialista em educação

TRANSMISSÃO: Record | Band

A especialista em educação Noelia Valle, professora de fisiologia na Universidad Francisco de Vitoria (Espanha) e criadora do site de divulgação científica La Pizarra de Noe, afirma que aumentar o tempo de estudo não é garantia de melhor aprendizagem. Em texto publicado no site The Conversation e em entrevista à BBC News Mundo, Valle explica que o processo de aprender depende mais da integração das informações do que da sua mera acumulação.

Memória de trabalho e carga cognitiva

Segundo Valle, a memória de trabalho funciona como a “RAM” do cérebro: um espaço limitado para reter e manipular informações de curto prazo. Esse espaço comporta apenas entre cinco e nove unidades de informação, chamadas de chunks. A carga cognitiva é o esforço mental exigido para processar o material, e pode ser dividida em intrínseca — a complexidade natural do conteúdo — e extrínseca — esforço adicional provocado por explicações confusas ou estímulos desnecessários.

A professora utiliza analogias para ilustrar os conceitos: se muitos elementos forem colocados ao mesmo tempo na “tábua de cortar” da memória de trabalho, parte deles será perdida; se a receita (a explicação) estiver mal formulada ou houver distrações, o esforço aumenta.

Especialistas versus iniciantes

Valle destaca que o tamanho dos chunks depende do conhecimento prévio. Um estudante iniciante pode precisar de múltiplos itens distintos que, para um especialista, já formam um único conceito integrado. Ela cita o exemplo médico: sintomas separados se agrupam em um diagnóstico único para quem tem experiência, liberando espaço da memória de trabalho para outras informações.

Estratégias de estudo recomendadas

Com base em evidências, a educadora recomenda distribuir o estudo em sessões curtas ao longo de várias semanas em vez de longas maratonas concentradas em um único dia. Pausas breves a cada 30 minutos ajudam a consolidar o conteúdo e a forçar a recuperação da matéria quando se retoma o estudo. Valle ressalta que a aprendizagem efetiva ocorre principalmente quando o cérebro é provocado a recuperar e reorganizar informações, não apenas a relê-las.

Como atividades que estimulam esse tipo de processamento, ela sugere transformar textos em esquemas ou desenhos, converter gráficos em explicações verbais, realizar testes de autoavaliação com correção, praticar a técnica de “dois atrás” (relacionar o item atual ao que apareceu duas posições antes) e explicar o conteúdo a outra pessoa. A especialista observa que recursos de inteligência artificial podem ser úteis para gerar perguntas e exercícios com variação de formato e dificuldade.

Sono, ambiente e fragmentação

Valle lembra que o sono é fundamental para a consolidação das memórias: processos como a limpeza glinfática e as repetições durante a fase REM reforçam conexões neuronais formadas durante o dia. O ambiente de estudo também influencia: locais bagunçados, barulho e notificações consomem parte da memória de trabalho. Além disso, recomenda ajustar o horário de estudos ao próprio cronotipo, evitando tarefas complexas nos momentos de baixa energia.

Para temas que parecem intransponíveis, a sugestão é fragmentar o conteúdo em partes mínimas e progressivamente aumentar a complexidade, usando esquemas de palavras-chave e, depois, mapas conceituais que integrem as informações. Esses pequenos avanços produzem reforço dopaminérgico que facilita o progresso.

Treinar a memória e respeitar a arquitetura cognitiva

Segundo a especialista, o treinamento da memória de trabalho reduz a atividade em regiões cerebrais associadas às funções executivas, como a rede frontoparietal, o que significa realizar a mesma tarefa com menos esforço neuronal, de modo similar ao que ocorre com um atleta experiente. Por isso, aprender bem não é forçar o cérebro além dos limites, mas organizar a apresentação e o processamento das informações para maximizar a retenção.

Valle encerra apontando que professores podem contribuir reduzindo a complexidade intrínseca por meio de segmentação do conteúdo e minimizando a carga extrínseca ao evitar distrações e explicações confusas.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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