24.6 C
Uberlândia
segunda-feira, outubro 26, 2026

Por que roupas estão tão caras na Argentina e como o governo Milei estimula compras no exterior

Alta dos preços e abertura às importações mudam o mercado têxtil argentino

Preços elevados das vestimentas na Argentina vêm levando consumidores a buscar compras fora do país, em destinos como Miami e Santiago, e também ao comércio eletrônico internacional. A prática tem se intensificado desde medidas do governo do presidente Javier Milei que reduziram tarifas e flexibilizaram regras de importação.

Consumidora de 29 anos chamada Macarena relatou que organizou financeiramente a viagem e deixou espaço na bagagem para trazer roupas compradas nos Estados Unidos. Para muitos argentinos que têm condições de viajar, a diferença de preços tornou viagens com propósito de compras uma prioridade.

Relatório da Secretaria de Comércio da Argentina, publicado em março do ano passado, apontou que o país tem as roupas mais caras da região. O estudo indicou que uma camiseta de marca internacional podia custar até 95% mais na Argentina do que no Brasil antes da redução das tarifas de importação determinada pelo governo Milei.

O setor têxtil atribui os preços a alta carga tributária e a outros custos. Claudio Drescher, presidente da Câmara da Indústria Têxtil e do Vestuário da Argentina, afirma que mais da metade do preço de uma peça produzida localmente corresponde a impostos. Entre eles estão o IVA de 21%, o imposto do cheque de 1,2% sobre movimentações bancárias e uma taxa de 1,8% para pagamentos por cartão. Além disso, o parcelamento, prática em quase 90% das compras de vestuário, acrescenta cerca de 15% em custos financeiros.

O economista Juan Carlos Hallak, da Universidade de Buenos Aires e doutor pela Universidade Harvard, explicou que o imposto do cheque é cumulativo, incidindo em várias etapas da cadeia produtiva. Segundo Drescher, por causa desses encargos, uma peça produzida na Argentina pode custar entre 25% e 30% a mais do que seria vendida no Chile. A entidade também informou que, nos últimos 18 meses, as vendas de marcas argentinas caíram em média 38%, resultando no fechamento de mais de 1.600 lojas e na perda de mais de 10 mil empregos formais no setor.

Para o governo, as altas tarifas e barreiras à importação protegiam empresários locais e permitiam preços elevados. Antes de Milei, roupas importadas pagavam tarifa de 35% para entrar no país. Em 2025, o Executivo reduziu essa alíquota para 20% e eliminou as chamadas licenças não automáticas de importação, permitindo também pequenas compras internacionais por courier e facilitando o acesso a plataformas como Shein e Temu.

Desde a posse de Milei, foram derrubados 24 impostos, embora a maioria das mudanças não tenha afetado diretamente a indústria têxtil. O ministro da Economia, Luis Caputo, chegou a declarar: “Nunca comprei roupas na Argentina porque era um roubo”, afirmando que os preços afetam os mais pobres. Milei defendeu a política de abertura ao dizer que o país não produzirá tudo e que deve concentrar-se no que faz melhor.

Críticos do ritmo das reformas, como Hallak, apontam que a abertura rápida em um setor sensível pode provocar falências e sugerem prazos maiores para adaptação. O estilista Benito Fernández contestou declarações que atribuem a responsabilidade apenas a designers, ao afirmar que culpar a categoria para enfrentar a concorrência chinesa é injusto.

Os efeitos econômicos recentes mostram que, apesar da queda de tarifas, os preços ao consumidor subiram 15% no último ano, abaixo da inflação acumulada de 33% até fevereiro de 2026, enquanto a produção local de roupas recuou 15% no mesmo período.

Enquanto o debate sobre medidas adequadas para proteger empregos e reduzir preços segue entre governo, empresários e especialistas, consumidores argentinos continuam recorrendo a compras no exterior e a alternativas como brechós e parcelamentos para renovar o guarda-roupa.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
Últimas Notícias
Veja também