O anúncio da Polícia Federal sobre o suposto furto de material biológico em um laboratório da Unicamp trouxe à tona dúvidas sobre a necessidade e o funcionamento do armazenamento de vírus e outros microrganismos em universidades. Especialistas consultados explicam por que amostras vivas são mantidas, que tipos de agentes são conservados, como são os níveis de biossegurança e de que forma ocorre o transporte de materiais entre centros de pesquisa.
Por que conservar vírus e microrganismos vivos
Pesquisadores guardam vírus, bactérias e fungos para ampliar e estudar o material, identificar sua estrutura e entender mecanismos de infecção. Esses procedimentos são fundamentais para desenvolver vacinas e medicamentos antivirais, segundo Paulo Sanches, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp e coordenador de virologia. Exemplos históricos incluem o isolamento e o cultivo do vírus da zika, que permitiram estudos sobre replicação viral em modelos laboratoriais durante a epidemia de 2015.
Tipos de agentes e critérios para armazenamento
A classificação dos microrganismos depende do nível de biossegurança (NB) requerido — que define o grau de contenção necessário para proteger profissionais, animais, o meio ambiente e a população. Entre os critérios estão virulência, modo de transmissão, existência de vacinas ou tratamentos, tipo de procedimento e infraestrutura disponível. Edison Luiz Durigon, professor titular de virologia na USP, cita como exemplo micobactérias multirresistentes de tuberculose, que exigem cuidados mais rígidos por falta de tratamento eficaz.
Os quatro níveis de biossegurança
Existem quatro níveis:
NB1: abriga microrganismos sem risco para humanos ou animais saudáveis; exemplos: Lactobacillus spp., Bacillus subtilis e bactérias da flora normal.
NB2: agente com risco moderado, com profilaxia ou tratamento disponível; exemplos: Schistosoma mansoni, vírus da rubéola, Clostridium tetani, Vibrio cholerae. Durigon observa que vírus da febre amarela pode ser trabalhado em NB2, mas ele prefere NB3 para maior segurança.
NB3: inclui agentes que podem causar doenças graves e transmitir-se por via respiratória; exemplares: Mycobacterium tuberculosis, Bacillus anthracis, Yersinia pestis, SARS-CoV, H5N1 e vírus do Nilo Ocidental. Laboratórios NB3 da USP, Unicamp, UFMG e Unesp mantêm vírus como zika, SARS-CoV, chikungunya e gripe aviária em condições controladas.
NB4: reservado para agentes de alto risco sem prevenção ou tratamento eficaz; exemplos: ebola, varíola, marburg, lassa e sabiá. Não há NB4 em operação no Brasil; o centro Orion, em Campinas, está previsto para inauguração em 2027.
Funcionamento de laboratórios NB3
Segundo Rejane Maria Tommasini Grotto, da Unesp, NB3 exige controle rigoroso de acesso (digitais, reconhecimento facial ou senha) e equipe treinada. As instalações têm pressão negativa, sistema de exaustão com filtros, paredes e roupas sem reentrâncias, fluxo unidirecional de entrada e antessala para paramentação. Materiais e resíduos devem ser autoclavados antes de sair do ambiente. Quando são manipuladas, amostras geralmente são mantidas congeladas (-80°C a -150°C) e destruídas por calor após uso.
Transporte de material biológico
O transporte entre laboratórios é prática rotineira e regulamentada. O envio segue normas técnicas, como as da IATA, e envolve embalagem tripla licenciada com papel absorvente e desinfetante, controle de saída por armários de porta dupla, desinfecção da embalagem externa e condições de preservação em freezers a -80°C ou em nitrogênio líquido a -153°C. Documentação, credenciamento e autorização de órgãos como a Anvisa são exigidos, e apenas profissionais treinados manipulam as amostras. O transporte não é feito por correio comum.
Resumo do caso da Unicamp
Em 23 de março de 2026, a Polícia Federal prendeu em flagrante a professora doutora Soledad Palameta Miller, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, suspeita de furtar amostras de vírus de um laboratório do Instituto de Biologia. As amostras desapareceram em 13 de fevereiro de 2026 e incluíam vírus H1N1 e H3N2, causadores de gripe tipo A. O material foi levado, sem autorização, para laboratórios da FEA na própria universidade. A Unicamp acionou a polícia; a PF abriu inquérito, interditou os laboratórios envolvidos e recuperou as amostras para análise. As autoridades afirmaram não haver risco de contaminação externa.
Soledad, 36 anos, argentina, foi liberada provisoriamente pela Justiça Federal em 24 de março e responderá em liberdade por furto, exposição da saúde pública a risco e transporte irregular de material biológico geneticamente modificado. O marido dela, Michael Edward Miller, veterinário e doutorando na Unicamp, também é investigado por possível envolvimento. A defesa afirma que Soledad trabalha com pesquisas sobre vacinas e doenças animais e que houve uso compartilhado de estrutura por falta de laboratório próprio na FEA, contestando a versão de furto.
Com informações de G1




