Projeto Uerê é premiado em Washington
O Projeto Uerê, iniciativa de ensino complementar que atua no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, recebeu o David M. Rubenstein Prize da Library of Congress (Biblioteca do Congresso) dos Estados Unidos. O anúncio do prêmio foi feito em 8 de setembro, Dia Internacional da Alfabetização, como parte do Literacy Awards 2026.
A premiação reconhece a Pedagogia Uerê‑Mello, criada por Yvonne Bezerra de Mello, fundadora e presidente do projeto, voltada para crianças e adolescentes que têm dificuldade de aprender em razão de traumas gerados pela exposição contínua à violência. A Biblioteca do Congresso destacou a contribuição mensurável do projeto para elevar níveis de alfabetização e restaurar a capacidade de aprendizagem de jovens vulneráveis.
A metodologia parte do entendimento de que a dificuldade de aprender não é uma falha individual, mas um efeito do trauma, que compromete a conexão entre áreas do cérebro e afeta, sobretudo, a memória. Com base nessa compreensão, as salas de aula do Uerê são reorganizadas: as aulas são divididas em blocos curtos de 12 a 15 minutos, começam com atividades que prendam a atenção, seguem com trabalho em grupo e deixam a escrita para o final. Ao longo das sessões, o ensino privilegia a oralidade e exercícios cognitivos.
Yvonne afirma que a atenção de crianças do ensino fundamental não ultrapassa 15 minutos, e por isso critica as aulas tradicionais de 50 minutos. Segundo a fundadora, cerca de 75% das crianças que chegam ao Uerê não sabem ler nem escrever, apresentando, em média, três anos de defasagem escolar; há casos de estudantes do sexto ano que não conseguem realizar provas do terceiro ano. Em média, o projeto consegue alfabetizar esses alunos em cerca de um ano. Yvonne também relata que não há evasão no Uerê e que a lista de espera soma 100 nomes.
Na 14ª edição do David M. Rubenstein Prize, o Uerê foi contemplado com o maior valor do programa, acima de US$ 100 mil. Outros vencedores principais receberam US$ 50 mil: Literacy Center of West Michigan e Read Alliance, ambos dos Estados Unidos, e Nal’ibali Trust, da África do Sul. O programa Literacy Awards é patrocinado por David M. Rubenstein desde 2013 e, a partir de 2023, também pela Kislak Family Foundation.
O bibliotecário do Congresso em exercício, Robert R. Newlen, afirmou que os premiados demonstraram respostas cuidadosas às circunstâncias de cada aluno. Para Yvonne, o reconhecimento valida uma forma mais moderna de ensinar, em contraste com o modelo escolar tradicional, que, segundo ela, tem apresentado resultados insatisfatórios na alfabetização no Brasil.
A origem da pedagogia remonta aos anos 1970, em Paris, quando Yvonne, estudante na cidade, alfabetizava filhos de colegas refugiados e constatou que crianças capazes de brincar e interagir tinham dificuldade para aprender a ler. Sua investigação a levou a áreas de conflito na África, como Sudão e Eritreia, onde observou padrões semelhantes. De volta ao Brasil em 1982, trabalhou por 13 anos com meninos de rua em uma escola chamada Sem Portas nem Janelas. Após a chacina da Candelária, em 1993, ela passou a atender sobreviventes sob um viaduto no Mangue e, em 1998, fundou o Projeto Uerê na Maré. Em 2000, publicou um livro sobre a pedagogia, fundamentado em estudos de neurociência e na experiência de campo.
Em quase três décadas de atuação, a Biblioteca do Congresso informa que o projeto atendeu mais de 3 mil crianças. Yvonne relata ter capacitado cerca de 15 mil professores em diversas cidades brasileiras — entre elas Recife, Volta Redonda, Petrópolis e a Ilha de Marajó — e em países como Suécia, Alemanha, França, Polônia, Cabo Verde, Etiópia, Ruanda e Estados Unidos. Na rede municipal do Rio de Janeiro, a pedagogia foi adotada como política pública entre 2008 e 2015 pelo programa Escolas do Amanhã. Segundo Yvonne, em 2017 o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) reconheceu a Pedagogia Uerê‑Mello como uma das melhores do mundo para atender crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
O prêmio da Biblioteca do Congresso soma-se a reconhecimentos internacionais e reafirma a proposta pedagógica voltada a recuperar a aprendizagem de jovens afetados pela violência.
Com informações de G1




