Análise aponta padrões incomuns nas três primeiras edições do exame
Um relatório da Rede Escola Pública e Universidade (REPU) divulgado em 4 de setembro de 2026 aponta a ocorrência de milhares de desempenhos estatisticamente atípicos nas primeiras três edições do Provão Paulista, exame seriado aplicado a estudantes da rede estadual de São Paulo. O estudo, intitulado “Fraude sistêmica no Provão Paulista e consequências para os processos seletivos de instituições públicas de Ensino Superior”, analisou microdados de 2023, 2024 e 2025 obtidos da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) por meio da Lei de Acesso à Informação.
O principal achado é a identificação de variações de desempenho entre edições consideradas extremamente improváveis de um ano para outro. Segundo os autores, esses resultados atípicos aparecem concentrados em determinadas escolas e regiões do estado, especialmente entre estudantes do 3º ano do Ensino Médio em 2025.
Foram detectados 4.305 desempenhos extraordinariamente elevados em 2025 em comparação com 2023 — número 12,7 vezes maior do que o esperado estatisticamente. A proporção de resultados atípicos entre alunos do 3º ano da rede estadual subiu de 0,49% em 2024 para 1,91% em 2025. Em contraste, nas Escolas Técnicas Estaduais (ETECs) apenas 0,17% dos estudantes tiveram resultados classificados como atípicos em 2025, uma taxa compatível com normalidade estatística.
A concentração é outro elemento ressaltado pelos pesquisadores: metade dos 4.305 casos atípicos em 2025 estava em apenas 50 escolas estaduais — 1,4% das unidades participantes do Provão Paulista. Em 44 dessas escolas, mais de 40% dos estudantes apresentaram desempenhos fora do padrão; em algumas unidades, o índice ultrapassou 90%. Regionalmente, metade dos casos atípicos estava em apenas 8 das 91 Unidades Regionais de Ensino (UREs); na URE com maior proporção, 28,6% das notas do 3º ano foram classificadas como fora do padrão.
Os autores cruzaram os resultados do exame com dados de bonificações pagas a profissionais da rede e com listas de estudantes convocados para instituições públicas de Ensino Superior. Dos 14.271 estudantes da rede estadual convocados via Provão Paulista para matrícula no primeiro semestre de 2026, 1.608 (11,3%) estudavam em 128 escolas nas quais mais de 20% dos resultados individuais foram classificados como atípicos. Ainda segundo o estudo, 1.266 convocados eram de escolas com mais de 40% de resultados atípicos e 1.017 de unidades com mais de metade dos estudantes com desempenho anômalo. Em nove escolas com mais de 75% de resultados atípicos e mais de 75% de convocados, 203 dos 225 estudantes (90%) tiveram desempenho atípico e 192 (85%) foram convocados para universidades públicas e Fatecs.
Os pesquisadores também relacionam o fenômeno às regras do próprio Provão Paulista: além de seletivo para universidades, o exame serve para avaliação das escolas estaduais e para definição de bonificações e medidas de responsabilização. A REPU aponta aumento no número de escolas beneficiadas por bonificações — de 559 unidades com Ensino Médio premiadas em 2024 para 2.839 em 2025 — e sugere que o sistema de recompensas, combinado com maior uso de celulares e ferramentas digitais em atividades escolares, pode ter criado incentivos para a inflação de resultados.
O relatório recupera denúncias desde 2023 sobre vazamentos, circulação de imagens e uso de celulares. Em novembro de 2025 a Seduc-SP confirmou a veracidade de imagens de provas em seis casos, os quais foram tratados como ocorrências pontuais pela secretaria. A REPU afirma que os novos achados estatísticos colocam essa avaliação em questionamento.
Os autores recomendam medidas antes da edição de 2026, como controle de dispositivos eletrônicos, restrição de circulação das provas, mudanças nos critérios de definição de locais de aplicação, aprimoramento na seleção e supervisão de aplicadores, criação de auditoria permanente, participação das instituições de Ensino Superior na revisão de segurança do exame, suspensão do uso do Provão para bonificações e punições, separação entre avaliação do sistema e processo seletivo, e divulgação integral de microdados e documentação metodológica. Eles ressaltam que a análise não permite identificar, individualmente, estudantes que tenham fraudado a prova nem quantas vagas efetivamente foram ocupadas por resultados irregulares, mas sustentam que as anomalias afetaram as listas de convocação e a igualdade de condições entre os candidatos.
A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo respondeu que os dados apresentados não sustentam a conclusão de fraude sistêmica nem comprometimento do processo seletivo, ressaltando que resultados estatisticamente atípicos isoladamente não constituem prova de irregularidade. A Seduc-SP afirmou ter realizado análise complementar, cruzando com o Saeb, e citou que entre 34 escolas com dados comparáveis, 22 apresentaram desempenho elevado em Matemática. Como exemplo, mencionou a EE Gavião Peixoto Conselheiro, onde 32 dos 35 estudantes tiveram resultados classificados como atípicos no Provão e alcançaram 363,7 pontos em Matemática no Saeb de 2025, com evolução de 106,4 pontos desde 2023. A secretaria confirmou seis casos pontuais de estudantes que fotografaram questões em 2025, com provas anuladas e orientações repassadas às equipes escolares.
Fernando Cássio, professor da Faculdade de Educação da USP, e Leonardo Crochik, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), estão entre os autores do estudo que conduziu a análise e as recomendações.
Com informações de G1




