Resumo do efeito global
As tarifas aplicadas pelos Estados Unidos a diversos países e produtos, anunciadas e ampliadas ao longo de 2026, elevaram o custo de bens importados no mercado americano e já pressionam empresas brasileiras que exportam para aquele país. Um estudo do Federal Reserve de Nova York divulgado em 2026 aponta que as medidas elevaram em 2,9 pontos percentuais a inflação dos produtos adquiridos por americanos até fevereiro de 2026. O mesmo levantamento estimou que uma tarifa global de 10% sobre todas as importações elevaria os preços ao consumidor nos EUA em 2,6% em um ano.
Medidas específicas e alcance sobre exportações brasileiras
Em julho de 2026, medidas comerciais anunciadas pelo governo dos EUA incluíram sobretaxas de 12,5% a 25% para grupos de produtos brasileiros. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), esses instrumentos abrangem 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos; 16,5% dessas vendas estão sujeitas a uma sobretaxa acumulada de 37,5%.
Setor calçadista
O segmento de calçados é um dos mais expostos. Entre janeiro e agosto de 2026 o Brasil exportou 62,45 milhões de pares que renderam US$ 541,45 milhões, queda de 7,5% no volume e de 16,8% na receita ante o mesmo período de 2025. Só em agosto foram embarcados 7,13 milhões de pares por US$ 70,8 milhões, recuos de 6,6% e 8,1%, respectivamente.
Nos primeiros oito meses do ano, o destino americano recebeu 7,38 milhões de pares, que somaram US$ 120,5 milhões — volume 4,1% menor e receita 22,8% menor que em igual período de 2025. Em agosto, o preço médio dos calçados exportados para os EUA caiu 35,4%, para US$ 17,20, segundo a Abicalçados. A entidade cita mudança no mix e retração nas categorias de maior valor, como calçados de couro.
Além dos EUA, a Argentina também reduziu compras: as exportações brasileiras ao país recuaram 51,6% em volume e 55,6% em receita até agosto. Diante desse cenário, a Abicalçados revisou a expectativa para as exportações de calçados em 2026, projetando agora queda de 7,1%, contra previsão anterior de retração de 3,6%.
Ao mesmo tempo, as importações de calçados para o mercado interno cresceram: entre janeiro e agosto entraram no país 33 milhões de pares, alta de 9,6% em relação a 2025, cujo valor subiu 11%, para US$ 429,7 milhões, com China, Vietnã e Indonésia respondendo por cerca de oito em cada 10 pares importados.
Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados, disse que a indústria enfrenta um “efeito pinça”: perda de mercado nos EUA e competição das importações no mercado interno. A associação estima a possível perda de mais de 5.000 empregos diretos no segundo semestre se as sobretaxas forem mantidas, embora até julho o setor tenha acumulado saldo positivo de 1.740 vagas no ano, com perda de 387 em julho.
Exemplo de adaptação: Rafarillo
A Rafarillo, fabricante em Franca (SP), renegociou contratos com compradores americanos, reorganizou linhas de produção, buscou fornecedores alternativos e reduziu postos de trabalho. Segundo André Ferreira, representante de comércio exterior da empresa, pedidos passaram a ser menores; a companhia, com cerca de 150 funcionários, tenta ampliar vendas para outras regiões como América Latina, Europa, África e Ásia.
Açúcar e etanol
No setor sucroenergético, o açúcar está sujeito à sobretaxa adicional de 25% prevista na medida específica para o Brasil, enquanto o etanol ocupa o centro de uma disputa comercial mais ampla. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que a política brasileira para biocombustíveis é não discriminatória e compatível com regras da Organização Mundial do Comércio, e contesta a avaliação americana sobre tratamento preferencial ao etanol produzido nos EUA.
Para açúcar e etanol, o efeito sobre preços internos não é automático: produtores podem buscar outros mercados ou redirecionar parte da produção ao mercado doméstico, o que em tese pode ampliar oferta e pressionar preços, mas isso depende de volumes, preços internacionais, câmbio e condições de oferta e demanda. Se as vendas internacionais caírem fortemente, usinas e produtores podem reduzir receitas, investimentos e impactar fornecedores e transportadores.
Máquinas e equipamentos
A indústria de máquinas e equipamentos também sente pressão externa e interna. No primeiro semestre de 2026, o setor registrou queda de 13,6% no faturamento e recuo de 17% nas vendas domésticas, enquanto as exportações aumentaram 12,7%, segundo a Abimaq. Os EUA foram responsáveis por cerca de US$ 3,2 bilhões das compras de máquinas e equipamentos brasileiros em 2025.
José Velloso, presidente-executivo da Abimaq, afirmou que a fraqueza do mercado interno e os juros elevados são hoje o principal fator por trás das demissões no setor, ainda que o tarifaço contribua para perdas de pedidos e efeito em cadeia. Segmentos voltados ao mercado interno, como máquinas agrícolas e colheitadeiras, registraram quedas de faturamento de aproximadamente 25% e 40%, respectivamente, nos últimos anos.
Efeitos em cadeia e no consumidor
A perda de pedidos para compradores americanos pode reduzir produção e demanda por insumos de fornecedores nacionais, gerando impactos indiretos mesmo em empresas que não exportam diretamente. A tarifa é cobrada na entrada do produto nos EUA e paga pelo importador americano, de modo que o impacto nos preços no Brasil não é imediato. Mecanismos possíveis incluem redução de margens por parte de exportadores, redirecionamento da produção para o mercado interno, cortes de produção e emprego e efeitos sobre o câmbio — um real desvalorizado poderia elevar preços de insumos importados.
Dados do MDIC mostram que os EUA representaram 10,8% das exportações brasileiras em 2025; de janeiro a agosto de 2026 a participação caiu para 9,6%. Para alguns economistas, o impacto do tarifaço será setorial e concentrado em regiões dependentes das exportações aos EUA, enquanto juros elevados e fraqueza do mercado interno pesam de forma mais ampla sobre a atividade econômica.
O efeito tende a chegar primeiro às empresas exportadoras, ao emprego e aos investimentos; só depois, dependendo da trajetória do câmbio e de outros fatores, poderá traduzir-se em variações de preço para o consumidor brasileiro.
Com informações de G1




