O travessão tem sido tratado por muitos leitores e autores como um indício de texto gerado por inteligência artificial desde a popularização de ferramentas como o ChatGPT, mas sua presença na escrita literária é antiga e recorrente em obras de autores consagrados.
Especialistas ouvidos lembram que o sinal de pontuação é empregado em diferentes funções, incluindo um uso próximo ao da vírgula para aumentar a clareza e variar a cadência do texto. Segundo Eduardo Calbucci, professor de Linguagens do Curso Anglo, o travessão pode ser uma escolha estilística sofisticada e é comum em textos acadêmicos e jurídicos. Ele alerta que, como IAs aprendem a partir de textos existentes, modelos treinados em material acadêmico podem reproduzir esse padrão.
Calbucci também observa que a ausência ou presença isolada do travessão não deve servir como prova de autoria por IA. Em vez disso, afirma, a suspeita deve surgir diante de uma mudança brusca de estilo no conjunto do texto — por exemplo, quando um autor adota, de repente, recursos mais rebuscados sem motivo aparente.
Outro ponto destacado é a limitação das ferramentas que alegam identificar textos gerados por IA. Luiz Leduíno de Salles Neto, professor do ICT/Unifesp, afirma que os detectores disponíveis não garantem precisão e podem indicar falsos positivos, classificando como artificial um conteúdo que, na verdade, foi escrito por uma pessoa.
Exemplos na literatura
O uso do travessão aparece em obras e autores clássicos muito anteriores à era digital. Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), de Machado de Assis, há trechos com o sinal marcando pausa e reforço; Clarice Lispector, em “A Hora da Estrela” (1977), emprega o travessão em interrupções introspectivas; João Guimarães Rosa utiliza o recurso em “Grande Sertão: Veredas” (1956) para aprofundar reflexões; e Fiódor Dostoiévski aparece com travessões em traduções e edições modernas de “Crime e Castigo” (1866).
Autores em línguas estrangeiras também exploraram o travessão: Emily Dickinson, no século XIX, fez uso extensivo dos “dashes” em sua poesia; Virginia Woolf inclui travessões em “Mrs. Dalloway” (1925) para produzir pausas no fluxo de consciência; Marcel Proust recorre ao tiret em “Em Busca do Tempo Perdido” (início do século XX) para digressões; e Shakespeare, em “Júlio César” (1599), tem traços traduzidos como travessões em edições modernas.
O consenso entre os especialistas consultados é que, quando o travessão torna a frase mais clara ou fluida, não há razão para evitá-lo apenas por suspeita de geração automática de texto. A identificação de autoria por IA deve considerar o conjunto estilístico e outras evidências, não um sinal isolado.
Com informações de G1




