O ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 completa três anos nesta quarta-feira (7), período em que não houve avanço no plano de paz apresentado pelos Estados Unidos para a Faixa de Gaza e em que o território segue fortemente afetado por ações militares e por uma crise humanitária.
Relatório do Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários (Ocha), divulgado na segunda-feira (5), aponta que Israel mantém ataques aéreos diários em áreas densamente povoadas de Gaza. A reportagem destaca que Israel ocupa 60% do território palestino, segundo o cenário levantado.
Dados do Ministério da Saúde de Gaza mostram que, entre 23 e 30 de setembro, 29 palestinos foram mortos e 147 ficaram feridos. Desde o anúncio do cessar-fogo, em 10 de outubro de 2025, foram contabilizados 1.431 mortos — uma média próxima de quatro mortes por dia.
A professora Isabela Agostinelli, da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), afirmou que a situação dos quase 2 milhões de palestinos não melhorou com o suposto cessar-fogo. Ela descreveu as condições humanitárias como catastróficas, com pouca ajuda autorizada a entrar e sem perspectiva de reconstrução.
O Ocha também alertou que a produção diária de refeições quentes em Gaza deve cair significativamente por falta de financiamento: apenas 40% dos US$ 4 bilhões solicitados para ajuda humanitária à Palestina ocupada foram transferidos. O órgão estima que 1,4 milhão de pessoas — o equivalente a 67% da população de Gaza — enfrentarão níveis de insegurança alimentar aguda entre julho e dezembro.
Um dos pontos centrais do impasse no plano dos Estados Unidos é o desarmamento do Hamas. Bruno Huberman, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coordenador do Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais, disse que o grupo aceita entregar as armas apenas depois da saída de Israel de Gaza, o que ainda não ocorreu. “Para Israel desocupar Gaza, eles falam que o Hamas tem que se desarmar. A gente está nesse impasse, e os EUA não estão se colocando para destravar esse impasse”, afirmou.
Huberman acrescentou que Israel tem impedido o retorno a Gaza de um comitê tecnocrático formado por palestinos sem ligação partidária, responsável por acompanhar a reconstrução; o grupo está exilado no Egito desde que viajou ao Cairo, em novembro do ano passado, para discutir o processo. O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, condicionou a transferência do governo civil do Hamas para o Comitê Nacional para Administração de Gaza à desmilitarização completa dos grupos palestinos do enclave.
Isabela Agostinelli afirmou ainda que milícias contrárias ao Hamas estariam sendo financiadas por Israel para disputar áreas em Gaza. Embora os bombardeios tenham diminuído em relação ao período de ataques intensos, ela observou que palestinos continuam morrendo direta ou indiretamente em razão das políticas israelenses.
Em junho de 2025, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu reconheceu apoiar grupos armados de Gaza que se opõem ao Hamas para “poupar a vida de soldados israelenses”, segundo reportagem do The Times of Israel, citada na matéria original. Para Huberman, os três anos de conflito institucionalizaram apatia e desesperança entre palestinos. Ele avaliou que o ataque de 7 de outubro fortaleceu o partido Likud e enfraqueceu posições favoráveis à coexistência dentro de Israel, além de ter causado um custo humano elevado e ter prejudicado a imagem de Israel.
Na Cisjordânia, os especialistas consultados apontaram aceleração da colonização e aumento da violência desde 7 de outubro. Isabela relatou expansão de assentamentos e tentativas de expulsão de palestinos de suas casas, com anuência do Estado israelense. O governo israelense justifica suas ações na Cisjordânia como parte do combate ao terrorismo e, segundo a reportagem, não reconhece o direito dos palestinos às terras do território.
Huberman observou que o aumento de ataques de colonos israelenses fortaleceu o isolamento do chefe da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e que uma ala mais à esquerda do Fatah busca aproximação com a Jihad Islâmica e o Hamas em vista das próximas eleições e de uma possível coalizão nacional. Quase 20 anos após a última eleição legislativa, a Autoridade Palestina marcou para 28 de novembro a votação que definirá o Parlamento que poderá substituir Abbas na liderança da organização sediada na Cisjordânia.
Com informações de Uberlandianofoco




