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sábado, setembro 19, 2026

Uberlândia se tornou refúgio para milhares de imigrantes e refugiados que fogem de fome, violência e guerra

Guerra, crises econômicas e perseguições empurram milhões a deixar seus países, e Uberlândia recebeu grande parte dessa migração: hoje a cidade abriga cerca de 6 mil imigrantes e refugiados de 123 nacionalidades, tornando-se um dos principais polos de acolhimento em Minas Gerais. A comunidade venezuelana é a maior, seguida por haitianos, além de pessoas vindas de Cuba, Irã, Iraque e Síria.

Fome, perseguição e crise forçam migração

Segundo Kelly Pereira, coordenadora da ONG Refugiados UDI, muitos chegam ao Brasil fugindo de situações extremas. “São pessoas que deixaram seus países por causa da fome, da violência, da perseguição política ou de crises econômicas severas. Muitas chegam sem recursos, sem falar português e sem uma rede de apoio”, afirma. A ONG oferece apoio para regularização documental, moradia, inserção no mercado de trabalho, doações de roupas e alimentos e aulas de português, que ocorrem aos sábados no bairro Tibery com o apoio da Cátedra Sérgio Vieira de Mello da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

UFU e políticas de acesso ao ensino superior

A Universidade Federal de Uberlândia instituiu uma política específica para receber refugiados, imigrantes em vulnerabilidade, apátridas e beneficiários de visto humanitário. Pela Resolução Consun nº 36, a instituição reserva vagas, simplifica processos de ingresso e facilita a revalidação de diplomas obtidos no exterior. A ação faz parte da Cátedra Sérgio Vieira de Mello (CSVM), programa criado pelo ACNUR e presente em 55 universidades brasileiras. Marriele Maia, coordenadora da Cátedra na UFU, diz que as atividades vão além do acesso à educação e envolvem documentação, saúde, combate à violência contra a mulher migrante, ensino de português, pesquisas e apoio à integração local.

Invisibilidade nas estatísticas

Apesar do aumento na população migrante, não há um retrato preciso de quantos refugiados vivem na cidade. Marriele Maia aponta que a metodologia dos registros oficiais dificulta a contagem: muitos solicitam documentação em aeroportos, portos ou fronteiras e depois se deslocam para outras cidades, o que os exclui das estatísticas locais. Dados do Sistema de Registro Nacional Migratório (Sismigra), da Polícia Federal, registraram 809 novos imigrantes internacionais em Uberlândia em 2025, ante 637 em 2024. No acumulado histórico, estima-se que a cidade recebe cerca de 6 mil refugiados de 123 etnias, com 1.620 venezuelanos e 1.356 haitianos entre os maiores grupos.

Contexto internacional

O ACNUR informou em seu Relatório de Tendências Globais que 117,8 milhões de pessoas estão em deslocamento forçado no mundo, sendo que 70% vivem em exílio por anos e muitas se encontram abaixo da linha da pobreza. Segundo a agência, o Brasil registrou aumento de 11% em pedidos de asilo, recebeu cerca de 2 milhões de migrantes e tem mais de 156 mil pessoas formalmente reconhecidas como refugiadas.

Diferença entre refugiado e imigrante

O texto ressalta que refugiado e imigrante não são termos intercambiáveis: refugiados são forçados a sair por risco à vida, liberdade ou segurança, protegidos por acordos internacionais e pela legislação brasileira; imigrantes mudam-se voluntariamente, em geral por trabalho, estudo ou reunião familiar. Na prática, ambos enfrentam obstáculos semelhantes no acesso a moradia, emprego, educação e serviços públicos.

Desafios na integração e pesquisa local

Estudos da UFU mostram que a população migrante enfrenta barreiras no acesso a direitos básicos. Pesquisas investigaram a inserção de crianças indígenas venezuelanas Warao na rede pública, as dificuldades de mulheres beneficiárias de visto humanitário para acessar serviços públicos e o papel das universidades na inclusão, destacando a importância de políticas afirmativas e programas de permanência.

Projeto municipal e propostas não aprovadas

Em 2023 foi protocolado na Câmara Municipal o Projeto de Lei nº 1.858 — que propunha criar a Política Municipal para a População Migrante, Refugiada, Apátrida e Retornada — com objetivo de ampliar acesso a serviços públicos, combater a xenofobia e qualificar o atendimento. Apesar da mobilização de organizações sociais, pesquisadores e representantes da comunidade migrante, a proposta não avançou.

História de recomeço

A experiência pessoal do venezuelano Josué Zurita ilustra desafios do recomeço. Após quase oito anos no Peru, onde recebeu diagnóstico de câncer em estágio avançado e ouviu que teria apenas um mês de vida, Josué sobreviveu. De volta à Venezuela, enfrentou escassez de alimentos e renda insuficiente — ele relata ganhar US$ 50 por semana, enquanto um frango custava US$ 15 — e decidiu migrar com US$ 200. Passou por Curitiba antes de chegar a Uberlândia, onde trabalhou na construção civil e enfrentou meses dormindo no chão até conseguir estabilidade e sustentar a família.

Organizações e a Cátedra Sérgio Vieira de Mello defendem que acolher implica garantir acesso a educação, saúde, emprego e direitos básicos, além de políticas públicas locais para reduzir a invisibilidade e favorecer a integração desses grupos.

Com informações de Paranaibamais

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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