TRANSMISSÃO: Band
Estudantes de medicina têm recorrido a campanhas de arrecadação online para pagar mensalidades e garantir a continuidade do curso, em casos que vão da mobilização solidária a ataques virtuais e perda de privacidade. Em Porto Alegre, o estudante Leonardo Reis recorreu a um apelo em vídeo nas redes sociais para se rematricular no último ano da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e, em menos de três dias, afirmou ter recebido R$ 125 mil em doações.
Leonardo relatou ser alvo principalmente de mensagens de apoio. Segundo ele, amigos, familiares, professores e contatos locais reuniram cerca de R$ 20 mil antes do vídeo viralizar; após a repercussão no TikTok, a captação cresceu rapidamente e, em aproximadamente 72 horas, a soma entre doações pela vaquinha e transferências diretas atingiu quase R$ 120 mil — montante que permitiu dar uma entrada de R$ 80 mil e confirmar a rematrícula para o ano final. O estudante disse ter se sentido emocionado com as manifestações de desconhecidos e afirmou que passou a ter uma forte sensação de responsabilidade para corresponder à confiança recebida.
Outra estudante, Thaís Ferreira, de 34 anos, também tornou pública a necessidade de recursos para concluir a graduação em medicina. Ex-nutricionista, ela fez uma segunda graduação e contou com auxílio financeiro da mãe, de uma tia e dos avós. Ao vender brigadeiros, levantou R$ 25 mil; depois, ao abrir uma vaquinha e receber transferências, arrecadou mais R$ 34 mil, totalizando os R$ 59 mil exigidos pela faculdade para efetivar a matrícula.
Ambos os casos ilustram diferentes desdobramentos: enquanto surgem correntes de solidariedade, há também exposição de detalhes pessoais que passam a ser escrutinados por terceiros. No caso de Thaís, internautas checaram publicações antigas e questionaram viagens e gastos anteriores — alegações que ela refutou ao explicar que alguns eventos ocorreram antes do ingresso no curso. A estudante relatou ainda receber ofensas e ameaças direcionadas a ela e à família após a divulgação das vaquinhas.
O debate sobre responsabilidade nas redes foi lembrado pelo professor de Direito Filipe Medon, da FGV-Rio, que destaca a tensão entre liberdade de expressão e eventual abuso na divulgação de informações com tom agressivo. Para ele, cada situação deve ser avaliada individualmente no que toca a eventual dever de indenizar por danos causados por campanhas de “cancelamento”.
Além das reações nas redes, os alunos descrevem efeitos no comportamento cotidiano após a arrecadação: vigilância sobre o próprio consumo e autocensura para evitar interpretações de que as doações estariam sendo mal utilizadas. Leonardo contou que passou a evitar comportamentos simples, como usar um aplicativo de transporte ou ir ao cinema, com receio de que imagens fossem mal interpretadas. Thaís, após conseguir a rematrícula, reduziu sua presença online para focar na conclusão do curso.
Os relatos também trazem dados sobre o contexto do ensino médico no Brasil: cursos públicos são altamente concorridos, enquanto no privado as mensalidades podem chegar a R$ 15 mil e programas como Fies e Prouni têm alcance limitado, fatores que contribuem para que estudantes busquem apoio financeiro coletivo. Mesmo com a finalização da graduação — Thaís formou-se em 2025 — as dívidas podem permanecer: ela estima dever cerca de R$ 300 mil a familiares, à faculdade e a um amigo que ajudou na rematrícula, e hoje faz plantões e atende em uma unidade básica de saúde para arcar com os compromissos.
As campanhas de financiamento coletivo, portanto, têm papel ambíguo: evitam o abandono do curso e mobilizam solidariedade, mas expõem jovens a escrutínio público, críticas, ameaças e a uma pressão adicional para “retribuir” a confiança de doadores.
Com informações de G1




