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sábado, outubro 31, 2026

Vera Paiva alerta para reativação de estímulo a ditaduras pelos EUA e relaciona avanço da extrema direita ao retrocesso democrático

Vera Paiva, professora titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e filha do ex-deputado Rubens Paiva, afirmou que observa um novo ciclo de incentivo a regimes autoritários por parte dos Estados Unidos e relacionou esse fenômeno ao fortalecimento da extrema direita no mundo. A declaração foi dada em entrevista na véspera do 62º aniversário do golpe de 1964 e da 6ª Caminhada do Silêncio, marcada para este domingo (29) em São Paulo (SP).

Vera, que tinha 17 anos quando o pai foi preso, torturado e assassinado pela ditadura militar, em 1971, atua também na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), colegiado que sua mãe, Eunice Paiva, integrou em 1996. Ela afirmou que o momento atual apresenta, de forma ampliada pelo uso de redes sociais, estímulos a perseguições e ao cerceamento de democracias, um processo que descreveu como racista e indiscriminado.

Segundo dados citados por Vera com base na Comissão Nacional da Verdade, o regime militar deixou ao menos 434 mortos e desaparecidos políticos, além de 8.300 indígenas e 1.196 camponeses afetados pela violência estatal. A professora alertou, porém, que esses números subestimam a extensão da repressão, porque muitas denúncias vieram de setores de classe média branca e de pessoas ligadas a organizações políticas, que tinham condições de tornar seus casos públicos.

Na entrevista, Vera detalhou avanços recentes nas investigações e nas políticas de reparação. Entre as ações retomadas pela CEMDP, ela citou a retificação de certidões de óbito, iniciada em São Paulo e prevista para ser realizada em Salvador, e o trabalho de identificação de restos mortais em valas como a de Perus, onde foram reconhecidos dois corpos. A pesquisadora descreveu como muito emocional a entrega de ossadas às famílias e ressaltou o impacto desse reconhecimento nas experiências de luto e de busca por justiça.

Vera também vinculou a persistência da violência de Estado nos dias atuais à herança da ditadura, especialmente nas periferias, e relatou que famílias de vítimas — muitas vezes pobres e negras — continuam a sofrer intimidações que dificultam denúncias públicas. Como exemplo, mencionou o massacre em Osasco, no qual, afirmou, 90% das vítimas eram negras, e ouviu relatos de ameaças a parentes que buscavam justiça.

Sobre o papel da cultura na preservação da memória, a professora citou filmes recentes, como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, que, segundo ela, ajudam a sensibilizar novas gerações e a encorajar famílias que ainda não haviam contado suas histórias. Vera defendeu a importância de renovar as mobilizações e disse que seu objetivo é transmitir a luta pela memória e reparação às gerações mais jovens; atualmente, ela tem 72 anos.

Na avaliação de Vera, decisões judiciais e políticas recentes também marcam mudanças importantes: a punição a ex-mandatários e militares envolvidos em tentativa de golpe e o voto do ministro Flávio Dino, que defendeu que crimes continuados da ditadura — como ocultação de cadáver e sequestro — não sejam abrangidos pela Lei da Anistia, configurando, assim, crimes contra a humanidade e sem prescrição.

Vera concluiu destacando que o combate ao autoritarismo exige mobilização contínua para impedir retrocessos e proteger os instrumentos da democracia, além de ampliar o acesso às reparações por parte de grupos historicamente invisibilizados.

Com informações de Uberlandianofoco

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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