Concentração de renda no topo aumenta mesmo com melhora em indicadores sociais
Um relatório da Oxfam Brasil divulgado em 19 de agosto de 2026 mostra que o 1% mais rico da população passou a deter 24,3% de toda a renda do país em 2023, ante 20,4% em 2017. Em termos práticos, isso significa que, de cada R$ 100 recebidos pelos brasileiros, cerca de R$ 24 ficaram com esse grupo restrito, e a maior parte do ganho ocorreu entre o 0,1% mais rico.
O estudo ressalta que a elevação da concentração ocorreu apesar de avanços em indicadores sociais. Em 2024, o rendimento mensal per capita atingiu R$ 2.020, o maior valor da série histórica do IBGE, e o coeficiente de Gini caiu para 0,506, o menor registrado. A diferença de renda entre o 1% mais rico e os 40% mais pobres também foi registrada no menor nível da série.
Segundo a Oxfam, aproximadamente 8,6 milhões de brasileiros deixaram a condição de pobreza, reduzindo a taxa de 27,3% para 23,1% da população. Ainda assim, os ganhos não foram distribuídos de forma uniforme, permitindo que os grupos de mais alta renda aumentassem sua participação na renda nacional.
Quando a análise considera patrimônio — como imóveis, investimentos e outros bens — a concentração cresce: o 1% mais rico detém 37,3% de toda a riqueza declarada no país, segundo o relatório. Para chegar às conclusões, a pesquisa cruzou dados do IBGE, da Receita Federal, do Ministério da Fazenda e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), além de estudos nacionais e internacionais sobre renda, patrimônio, tributação e representação política.
O documento informa que o Brasil encerrou 2025 como o quarto país com maior desigualdade patrimonial entre 56 mercados analisados, com cerca de 386 mil milionários em dólar. Conforme estudo do banco UBS citado pela Oxfam, o país ganhou 9.215 novos milionários em 2025, totalizando 386 mil pessoas com patrimônio superior a US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,1 milhões), mantendo-se com o maior número de milionários da América Latina.
A Oxfam critica a estrutura tributária brasileira como regressiva, por incidir mais sobre consumo e salários do que sobre patrimônio e rendimentos do capital. O relatório destaca que a alíquota efetiva do Imposto de Renda cai para 4,6% entre o 0,01% mais rico, principalmente devido à isenção sobre lucros e dividendos e à baixa tributação sobre heranças, o que, segundo a entidade, reduz a capacidade redistributiva do Estado.
No mercado de trabalho formal, homens não negros recebem em média R$ 6.560 por mês, enquanto mulheres negras recebem R$ 3.026; considerando todo o mercado de trabalho, inclusive o informal, a renda média das mulheres negras cai para R$ 2.079.
A pesquisa relaciona também patrimônio com representação política: embora as mulheres componham 52,65% do eleitorado, ocuparam 17% das cadeiras conquistadas nas eleições de 2022, enquanto homens brancos representaram 56,5% dos eleitos. Quase 45% dos eleitos declararam patrimônio superior a R$ 1 milhão, e nenhum candidato ao Senado que declarou patrimônio de até R$ 100 mil foi eleito, aponta o levantamento.
Entre as propostas apontadas pela Oxfam estão tributação de lucros e dividendos, aumento da taxação sobre grandes fortunas e heranças, revisão de benefícios fiscais sem contrapartida social, maior transparência sobre o impacto dos impostos por gênero e raça, regras mais rígidas para lobby e conflitos de interesse, quarentenas para reduzir conflitos entre setor público e privado, ampliação do apoio financeiro a candidaturas de mulheres negras e grupos sub-representados, e melhor integração das emendas parlamentares ao planejamento nacional.
Para a organização, a combinação dessas medidas seria necessária para reduzir a concentração de riqueza e ampliar a representatividade democrática no país.
Com informações de G1




