TRANSMISSÃO: Record
A Páscoa, que movimenta bilhões de reais no comércio e se manifesta em vitrines e campanhas sazonais, tem origem diversa das imagens comerciais que vemos hoje. Para compreender por que o feriado é celebrado anualmente é necessário recuar mais de 3 mil anos, às margens do Rio Nilo, quando surgiu o Pessach — termo hebraico que significa “passagem”.
Quem e o que
O Pessach é a festa judaica que recorda a libertação dos hebreus da escravidão no Egito. De acordo com o relato bíblico do livro do Êxodo, os descendentes de Jacó foram para o Egito na época de José, e, com o tempo, foram escravizados por um novo faraó. Nesse contexto Deus teria chamado Moisés para liderar a saída dos israelitas, episódio marcado pela passagem do “anjo da morte” que poupou as casas hebraicas e pela travessia do Mar Vermelho.
Quando, onde e por que
Séculos depois, já no contexto do Império Romano, o calendário judaico serviu de referência para a tradição cristã. A última ceia de Jesus acontecia em ambiente de Pessach, e o significado de “passagem” foi reinterpretado pelos cristãos como a passagem da morte para a vida, por meio da Ressurreição de Jesus Cristo. Assim, embora cristãos e judeus compartilhem época e raiz etimológica, a Páscoa cristã passou a ser entendida como o cumprimento das promessas figuradas no Pessach.
Símbolos tradicionais
A celebração original preservou símbolos centenários: o cordeiro, que no contexto do Êxodo era um animal sacrificial e, no Novo Testamento, é associado a Jesus; o sangue, que no relato bíblico protegeu da morte física e, na interpretação cristã, remete à salvação do pecado; e a própria ideia de passagem — da escravidão à liberdade, e da morte à ressurreição.
Ovo e coelho: origem e transformação
Elementos como ovo e coelho vieram de práticas populares que celebravam a chegada da primavera no Hemisfério Norte. Povos antigos — entre eles egípcios, persas e germânicos — usavam o ovo como símbolo de vida e renovação. O coelho, ligado à fertilidade por sua elevada reprodução, era associado a festivais germânicos dedicados à deusa Eostre.

Na Europa Medieval, a proibição de consumir ovos durante a Quaresma fazia com que, no domingo de Páscoa, as pessoas recuperassem o hábito de comer ovos decorados, instaurando a tradição visual. Com a Revolução Industrial e a chegada de imigrantes alemães que trouxeram a lenda do “Osterhase” (o coelho que traz ovos), a celebração ganhou um aspecto lúdico. No século XIX, o desenvolvimento da prensa de cacau possibilitou a moldagem do chocolate, e o ovo oco de chocolate passou a ser empregado como estratégia de mercado, consolidando a transformação cultural e religiosa em um evento de consumo de massa.
Ao longo dos séculos, portanto, a Páscoa reuniu raízes judaicas, reinterpretacões cristãs e práticas populares sazonais que, juntas, deram origem aos símbolos e ao comércio que observamos hoje.
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