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As ações preferenciais da Petrobras (PETR4) atingiram valores recordes na Bolsa brasileira após o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, em um movimento puxado pela valorização do petróleo no mercado internacional. A escalada dos preços do petróleo, classificada por analistas como um choque do tipo ocorrido em 1973 e 1979, pressionou custos de combustíveis no Brasil: o diesel subiu quase 20% nos postos em poucas semanas.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil destacam que a reação dos investidores também reflete a retomada de investimentos em exploração e a modernização do parque de refinarias da estatal. A produção doméstica, por sua vez, alcançou um recorde em fevereiro, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP): 5,304 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d).
Economistas István Kecskeméti e Zoltan Horváth, em análise divulgada em 11 de março pela consultoria OTP Global Markets, afirmam que, mantendo-se outras variáveis constantes, a alta do petróleo tende a aumentar exportações, receitas tributárias e os dividendos que vão para o Tesouro.
Apesar de autossuficiente em petróleo bruto e exportador, o país ainda depende de importações de derivados como diesel, gasolina e querosene de aviação. Em resposta ao quadro, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou em 1º de abril que a empresa avalia a possibilidade de o Brasil alcançar autossuficiência em diesel em cinco anos — meta inicialmente fixada em suprir 80% da demanda no período.
A alta dos preços já provoca problemas de abastecimento: houve registros de racionamento ou desabastecimento de diesel no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso, regiões essenciais para a colheita da safra de verão, que inclui soja, milho e arroz.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com contundência a um leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP) promovido pela Petrobras, em que o produto foi vendido a distribuidoras com preços até 100% superiores à tabela da companhia. “Foi feito um leilão, eu diria que uma cretinice, bandidagem que fizeram”, afirmou Lula, que chegou a ameaçar anular o processo, mas isentou a direção da Petrobras de responsabilidade pelo episódio.
Para o ex-vice-presidente do Banco Mundial Otaviano Canuto, a maior preocupação para a economia brasileira é o impacto sobre o diesel e, sobretudo, sobre os fertilizantes. Economistas e analistas de mercado observam que o preço das ações da Petrobras responde a fatores externos e internos: Mahatma Ramos lembra a influência de crises como a pandemia e a guerra da Ucrânia; Cloviomar Cararine ressalta que avaliações de mercado combinam aspectos operacionais, políticos e especulativos.
No mercado, a trajetória das PETR4 ilustra o efeito direto do conflito. Em 27 de fevereiro, véspera dos ataques, as ações fecharam a R$ 39,33. Quando os mercados reabriram em 2 de março, PETR4 saltaram para R$ 41,13 (alta de 4,58%). Ao longo dos 22 pregões seguintes, as ações ficaram negativas em apenas sete sessões e, em 1º de abril, fecharam a R$ 47,29 — elevação de cerca de 20% em torno de um mês.
O barril do petróleo Brent acompanhou movimento parecido: fechou a US$ 73,25 em 27 de fevereiro, subiu para US$ 77,75 em 2 de março e cotou US$ 107,94 em 2 de abril, após atingir pico de US$ 116,25 em 9 de março, quando ficou evidente a ameaça iraniana de bloquear o estreito de Ormuz — rota por onde passa cerca de um quinto da produção mundial.
Acadêmicos e economistas lembram também que a Petrobras vinha apresentando forte desempenho: segundo o professor Maurício Weiss (UFRGS), o lucro da empresa cresceu praticamente 200% em relação ao ano anterior, ultrapassando R$ 110 bilhões, impulsionado pelo aumento da produção, especialmente do pré-sal. A companhia, maior em valor de mercado na América Latina, acima de US$ 130 bilhões, mantém histórico marcado pela descoberta do pré-sal e pelas consequências da Operação Lava-Jato.
Desde a adoção do Preço de Paridade de Importação (PPI) na gestão de Michel Temer até as medidas recentes do governo Lula — redução a zero do PIS/Cofins sobre o diesel, subsídio de R$ 0,32 por litro do combustível e redução de alíquotas do ICMS em acordo com os 27 governadores —, o tema dos preços dos combustíveis e da estratégia da empresa permanece no centro do debate econômico e político.
O futuro da Petrobras, afirmam consultores e economistas, dependerá da combinação entre choques externos, decisões de política interna e a evolução da matriz energética global, com atores como os Estados Unidos e a China desempenhando papeis relevantes.
Com informações de G1




