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segunda-feira, outubro 26, 2026

Ter emprego não garante proteção contra a pobreza na Argentina, dizem estudos e trabalhadores

Emprego formal deixa de ser garantia contra pobreza na Argentina, mostram dados e relatos

Ter vínculo empregatício deixou de ser sinônimo de segurança econômica para uma parcela significativa dos trabalhadores na Argentina, apontam pesquisas e relatos pessoais. Apesar da queda recente da taxa de pobreza, aumentou a percepção e a realidade de que quem trabalha pode continuar vivendo em lares pobres.

O caso da porto-alegrense radicada em Buenos Aires, Antonela, ilustra a situação. Aos 37 anos, ela atua de segunda a sábado em um instituto privado de bioquímica, onde organiza agendas, arquivos e autorizações médicas. Mesmo com formação universitária e salário acima do piso mínimo, diz que a renda já não é suficiente para manter o padrão de vida anterior. Para complementar os ganhos, faz um segundo trabalho sem remuneração fixa em uma empresa farmacêutica nas horas vagas.

Pesquisadores e institutos apontam que fenômenos como esse se enquadram na categoria de “trabalhadores pobres” — pessoas empregadas cujo rendimento não as tira da condição de pobreza. A diretora da área de Emprego, Distribuição e Instituições Trabalhistas do Instituto Interdisciplinar de Economia Política da Universidade de Buenos Aires (UBA), Roxana Maurizio, afirma que “ter emprego não é mais um seguro contra a pobreza na Argentina”. O instituto registrou deterioração do emprego formal, com oito meses consecutivos de queda até dezembro.

Dados oficiais do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) apresentados no fim de março mostram a pobreza em 28%, o menor patamar em sete anos, número comemorado pelo governo do presidente Javier Milei. O ministro da Economia, Luis Caputo, atribuiu a redução ao crescimento econômico, à queda da inflação e ao reforço de programas sociais sem intermediários.

Entretanto, analistas e estudos privados ressaltam limites e distorções metodológicas. Daniel Schteingart, da Argendata-Fundar, aponta que parte da forte redução observada pode decorrer de mudanças na metodologia de medição da pobreza e do recuo inflacionário após picos recentes. No início do governo, por exemplo, a pobreza subiu cerca de 11 pontos nos primeiros seis meses, alcançando quase 53% da população.

Estudos de institutos como a Fundação Mediterrânea e pesquisas da Universidade Católica Argentina (UCA) ressaltam que um em cada cinco trabalhadores é pobre, com percentuais mais altos entre os ocupados no setor informal. O Instituto Interdisciplinar da UBA registrou que entre trabalhadores informais a proporção chega a um em cada três. Argendata-Fundar, com base na Pesquisa Permanente de Lares do Indec, aponta pobreza de 10% entre assalariados formais e de mais de 33% entre assalariados informais. Para trabalhadores autônomos, o índice alcança 27%.

Especialistas destacam fatores estruturais: queda do poder de compra e expansão da informalidade. A UCA calcula que a capacidade de compra do salário médio mensal caiu mais de 20% entre 2010 e 2025. A inflação acumulada em 12 meses é de 33% e, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), cerca de seis milhões de pessoas trabalham na informalidade no país, sem acesso a direitos básicos como cobertura de saúde e contribuições previdenciárias.

Pesquisadores observam ainda que a precarização afetou com maior intensidade jovens e mulheres. Antonela, que depende de um segundo trabalho, apoio familiar e endividamento para arcar com despesas, espera não precisar mais dessas alternativas e sair do que descreve como um estado de “modo sobrevivência”.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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