Navios com GLP chegam à Índia em passagem rara pelo Estreito de Ormuz
Em 17/03/2026, o navio indiano Nanda Devi atracou no porto de Vadinar, no distrito de Jamnagar, em Gujarat, após receber autorização do Irã para atravessar o Estreito de Ormuz, corredor energético que permanece em grande parte interrompido devido à guerra no Oriente Médio. Junto ao petroleiro Shivalik, as embarcações indianas transportaram cerca de 92.700 toneladas métricas de GLP (gás liquefeito de petróleo), movimento apontado como exceção nas rotas comerciais afetadas pelo conflito, segundo a AFP.
O episódio ilustra a persistente dependência global do petróleo, mesmo três anos após compromissos internacionais anunciados em 2023 para reduzir o uso de combustíveis fósseis. Especialistas e autoridades afirmam que, além do impacto climático, a continuidade do uso do petróleo está ligada a riscos econômicos e de segurança energética em escala mundial.
Do ponto de vista econômico, agentes dos mercados financeiros seguem de perto as oscilações do preço do barril porque muitos ativos e instituições estão profundamente ligados ao setor de hidrocarbonetos. Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima do Brasil, advertiu que uma transição abrupta que desestruture empresas de combustíveis fósseis poderia provocar um desastre econômico global e afetar grandes bancos.
A dependência não se limita a países tradicionalmente petrolíferos como Arábia Saudita, Kuwait e Iraque. No Brasil, a Petrobras tem papel central nas exportações, e uma retirada súbita afetaria a balança comercial. Na Colômbia, a forte dependência das receitas petrolíferas levou o presidente Gustavo Petro a pedir alívio da dívida soberana como condição para deixar de conceder novos contratos de exploração.
Quanto à vontade política, especialistas destacam diferença entre capacidade e intenção. Bill Hare, do Climate Analytics, afirmou que nações como Estados Unidos, Canadá e Austrália dispõem de meios para a transição, mas que a decisão é política. O retorno de Donald Trump à presidência e o avanço de forças de direita em diversos países têm deslocado prioridades econômicas acima da agenda climática, observa o pesquisador Leonardo Stanley.
O setor de óleo e gás também exerce forte influência nos bastidores das negociações climáticas. Empresas como ExxonMobil e Aramco mantêm presença nas conferências da ONU e recorrem a consultorias para defender interesses, o que, segundo Angelo, ajuda a postergar mudanças há décadas.
Especialistas apontam ainda a necessidade de mecanismos financeiros internacionais para apoiar países produtores e nações mais pobres durante a transição — iniciativa que, até o momento, não se consolidou. Apesar desses entraves, houve avanços: segundo a Irena, fontes renováveis atingiram quase 50% da capacidade elétrica mundial em 2025. A China impulsionou fortemente a expansão eólica e solar, o Paquistão elevou a participação da energia solar em sua matriz desde 2020, e em partes da Austrália e dos Estados Unidos a queda nos custos de eletricidade foi atribuída ao crescimento das renováveis.
O debate sobre como substituir o petróleo segue marcado por desafios econômicos, políticos e institucionais, enquanto sinais de transição energética coexistem com a realidade da contínua dependência do “ouro negro”.
Com informações de G1




