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quinta-feira, outubro 22, 2026

Recorde de endividamento: quase 82 milhões de inadimplentes e impacto das bets na vida dos brasileiros

TRANSMISSÃO: Record

Mais de 80% das famílias brasileiras estavam endividadas em março, e quase 82 milhões de pessoas apareciam como inadimplentes no início do ano, segundo pesquisas que mostram um patamar histórico de endividamento no país. Os números acendem sinais de alerta para o governo em ano eleitoral e expõem causas que vão desde o maior acesso ao crédito até a expansão das plataformas de apostas online.

De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), elaborada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) desde janeiro de 2010, 80,4% das famílias tinham algum tipo de dívida em março. Do total, 29,6% registravam contas em atraso e 12,3% declararam não ter condições de quitar esses débitos naquele mês. O pagamento de dívidas comprometia, em média, 29,6% da renda familiar.

Os principais tipos de compromisso financeiro citados pelas famílias foram cartões de crédito (84,9%), crediário do varejo (16%) e empréstimos pessoais (12,6%). Pesquisa da Serasa aponta que, em fevereiro, 81,7 milhões de brasileiros — ou 49,9% da população adulta — estavam inadimplentes, com dívida média por pessoa de R$ 6.598,13.

Especialistas entrevistados pela reportagem citam três fatores centrais para o quadro: ampliação da oferta de crédito com maior bancarização desde a pandemia, taxas de juros elevadas e, mais recentemente, a difusão das casas de apostas online (bets). O Banco Central registrou juro médio do rotativo do cartão de crédito em 435,9% ao ano em fevereiro. Uma norma em vigor desde 2024 limita o aumento da dívida no cartão a até o dobro do valor original.

O governo avalia que o peso das dívidas tem ofuscado sinais macroeconômicos positivos — como crescimento do PIB e inflação controlada — e, por isso, planeja lançar uma nova edição do programa Desenrola. Entre as alternativas em estudo está a liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para abater dívidas, com montante preliminar estimado em até R$ 7 bilhões. Também são discutidas medidas para conter o uso excessivo de plataformas de apostas. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, indicou que o programa deve atingir pessoa física e empresas.

Casos pessoais ilustram os efeitos do endividamento. A psicóloga autônoma Bárbara Helena, 31 anos, de Florianópolis, diz ter tido três cartões que a levaram a dever mais de R$ 20 mil — originalmente cerca de R$ 10 mil, que dobraram em seis meses devido aos juros. A perda de clientes reduziu sua renda e obrigou escolhas entre pagar aluguel, contas ou parcelas do cartão.

O geógrafo Kauê Lopes dos Santos, da Unicamp, autor do livro Parcelado, afirma que o parcelamento se consolidou como modo de organização do orçamento doméstico, sobretudo entre populações de baixa renda, e limita a capacidade de projetar o futuro. Segundo ele, a oferta de apostas online agrava o problema porque promete ganhos fáceis e leva ao uso de crédito ainda mais caro.

Relatos como o de Nicole, 21 anos, do interior da Bahia, mostram a vulnerabilidade: desempregada e com Bolsa Família como única renda, ela afirma ter contraído empréstimos em cinco instituições para continuar apostando e estima dívidas superiores a R$ 10 mil. “Meu nome hoje em dia é sujo em cinco bancos por conta das casas de apostas”, relata.

Para Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, parte do problema decorre de falta de critérios rigorosos na oferta de crédito, especialmente em modalidades de uso popular. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) contesta essa visão, afirmando que o sistema bancário segue regras do Banco Central e que o rotativo é uma linha emergencial de curtíssimo prazo.

Analistas lembram que a bancarização e o Pix ampliaram o acesso a serviços financeiros, mas a combinação de maior oferta de crédito, baixa educação financeira e juros elevados — a Selic chegou a 15% ao ano e está em 14,75% — resultou em um cenário explosivo de endividamento. Estudos indicam que a primeira edição do Desenrola reduziu a inadimplência entre famílias de baixa renda em 2 a 3,5 pontos percentuais, mas que o efeito foi temporário e se dissipou em cerca de 18 meses.

O relato de pequenos empreendedores e trabalhadores sublinha o impacto social do fenômeno: Otávio, 39 anos, proprietário de uma loja no interior de Minas, estimou dívidas atuais em cerca de R$ 30 mil após vender o carro e pedir empréstimos que consumiu em apostas. Entre os entrevistados há diversidade de posições políticas, mas consenso sobre o desconhecimento generalizado das medidas em estudo pelo governo para reduzir o endividamento.

As apostas foram autorizadas em 2018 e tiveram regulamentação em 2023 e 2024. Pesquisas recentes sugerem que cerca de 29% dos brasileiros costumam apostar, o que alimenta o debate sobre medidas estatais para frear esse tipo de oferta e mitigar o avanço da inadimplência.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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