Uma onda de calor ocorre quando as temperaturas permanecem muito acima da média esperada para uma região durante vários dias seguidos. Especialistas ouvidos indicam aumento na frequência desses episódios no Brasil e destacam risco crescente à saúde pública e ao meio ambiente. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) chegou a emitir nota técnica alertando para um possível “desastre térmico” no segundo semestre de 2026.
Definição e critérios
O climatologista Denis Garcia explica que uma onda de calor costuma ser caracterizada por pelo menos três a cinco dias consecutivos com temperaturas cerca de 5°C acima da média esperada. O fenômeno tende a abranger áreas extensas e a se prolongar quando sistemas atmosféricos permanecem estáveis por vários dias.
Como se formam
Garcia aponta que a principal causa é a atuação de um sistema de alta pressão atmosférica. Esse sistema inibe a formação de nuvens, permitindo maior incidência de radiação solar sobre a superfície. O ar que desce comprime as camadas próximas ao solo e eleva a temperatura local. Ventos fracos e a ausência de frentes frias impedem a renovação do ar, mantendo as condições de calor.
O solo seco também contribui: com menos umidade disponível, há menor evaporação e, portanto, menor resfriamento natural da superfície, o que intensifica e prolonga o aquecimento. Segundo Garcia, quando há combinação entre alta pressão, bloqueios atmosféricos e falta de frentes frias, a atmosfera pode ficar “travada” por vários dias.
Duração
Embora o mínimo para caracterizar uma onda de calor seja de três a cinco dias, episódios mais severos podem ultrapassar dez dias consecutivos. A persistência depende da intensidade do bloqueio atmosférico e das condições do solo; bloqueios fortes e solo seco tendem a estender o período de calor.
Riscos à saúde
O geógrafo William Borges alerta que o calor extremo é um dos maiores riscos atuais à saúde pública. Temperaturas elevadas prejudicam a capacidade do corpo de regular a temperatura e podem causar estresse térmico, exaustão, desidratação, insolação e agravar doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e diabetes.
Borges ressalta que idosos, crianças, gestantes, trabalhadores expostos ao sol e pessoas em situação de vulnerabilidade social são os grupos mais afetados. Entre 2000 e 2018, ondas de calor contribuíram para até 55 mil mortes em excesso nas cidades brasileiras. A Organização Mundial da Saúde registrou aumento de 23% nas mortes relacionadas ao calor nos últimos 35 anos, e a mortalidade por calor no Brasil tende a ser subnotificada, muitas vezes registrada como óbito por doenças cardiovasculares ou respiratórias.
Como se proteger
Recomendações dos especialistas incluem evitar exposição ao sol entre 10h e 16h, manter hidratação constante e usar roupas leves e de cores claras. William Borges alerta que, a partir de 35°C, ventiladores perdem eficácia, tornando o ar-condicionado praticamente indispensável — um fator que aprofunda desigualdades socioeconômicas.
Medidas coletivas sugeridas incluem ampliação de áreas verdes, criação de centros de hidratação e fortalecimento de sistemas de alerta e atendimento médico.
Eventos recentes e alerta para 2026
O país registrou sequência histórica de ondas de calor: 8 episódios em 2023, 10 em 2024 e 7 em 2025, segundo especialistas. Em fevereiro de 2026, temperaturas próximas de 42°C deixaram 511 municípios do Sul do Brasil em alerta. No verão de 2024/2025, o calor extremo coincidiu com queimadas na Amazônia, e a combinação de fumaça, poluentes e altas temperaturas elevou o risco de infartos e acidentes vasculares cerebrais.
Para o segundo semestre de 2026, o Cemaden aponta possibilidade de “desastre térmico”. Há cerca de 80% de probabilidade de estabelecimento do El Niño no Oceano Pacífico, com efeitos mais intensos a partir de setembro. A combinação desse fenômeno com o aquecimento global pode gerar ondas de calor mais frequentes, longas e intensas, especialmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Outro ponto de preocupação é a elevação das temperaturas mínimas noturnas, que reduz a recuperação do corpo entre os períodos de calor diário. Como alertou o climatologista José Marengo: ‘O calor é um assassino invisível e silencioso’.
Com informações de Paranaibamais




