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domingo, outubro 25, 2026

Aplicativos, parcelamentos e influenciadores alimentam ciclo de endividamento no Brasil

Crédito fácil e estímulos digitais impulsionam dívidas de consumidores

A expansão das compras online e a oferta de crédito dentro de plataformas são apontadas como causas centrais do aumento do endividamento no Brasil, especialmente quando combinadas com práticas de estímulo ao consumo por impulso, como lives com cupons e promoções frequentes.

A Organização Mundial da Saúde estima que a compulsão por comprar atinja 8% dos consumidores globalmente. No país, 80% das compras virtuais são realizadas por meio de celulares, em um mercado que movimenta R$ 258 bilhões por ano. Na televisão e nas redes, promoções constantes e influenciadores têm reforçado a decisão imediata pela compra.

Consumidores com transtorno de compra compulsiva — a chamada oniomania — relatam facilidade de acesso ao crédito como um fator determinante. A influenciadora Camila Nunes, que aborda o tema em suas redes, relembra que, apesar de ter tido um bom salário, o acúmulo de cartões e a possibilidade de parcelamento a levaram a contrair 21 empréstimos, que, com juros, somaram uma dívida de R$ 240 mil.

Especialistas financeiros alertam para o efeito psicológico das parcelas. Ana Paula Hornos, educadora financeira e professora da FGV-IDE, afirma que os pagamentos em prestações deslocam o foco do valor total para o valor mensal, o que dá a sensação de menor preço e facilita compras sem a devida avaliação dos juros embutidos.

Os dados mostram que o uso do rotativo do cartão de crédito, a modalidade de crédito mais cara, alcançou R$ 109,65 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 9,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em março, a taxa de juros do rotativo chegou a 428,3% ao ano. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo indica que os principais tipos de dívida dos brasileiros são: cartão de crédito (84,9%), crediário do varejo (16%) e empréstimos pessoais (12,6%). A pesquisa também aponta que 80,4% das famílias estavam endividadas em março.

Além do impacto financeiro, há aumento na busca por tratamento. A psicóloga Tatiana Filomensky, que atua com transtornos do impulso, relata crescimento na demanda por atendimentos ambulatoriais e longas filas para consultas. Em paralelo, grupos como o Devedores Anônimos oferecem reuniões no modelo de grupos de apoio para quem busca ajuda coletiva.

Profissionais que acompanham o tema destacam que o ambiente digital intensifica os gatilhos para compras imediatas: notificações, recomendações personalizadas, vídeos curtos e programas de afiliados que misturam conteúdo de entretenimento com publicidade. Em plataformas de vídeo, o ato de “scroll” torna quase automático o encontro do consumidor com ofertas e influenciadores, reduzindo o tempo de reflexão antes da compra.

Outro ponto em discussão é a presença do crédito diretamente nas plataformas. No fim de março, a agência Reuters noticiou que o TikTok entrou em contato com o Banco Central para tratar da possibilidade de oferecer serviços financeiros, o que poderia incluir capital próprio para empréstimos ou intermediação entre tomadores e credores. Modelos semelhantes já existem: o Mercado Livre opera o Mercado Pago e a Shopee obteve autorização para oferecer sistema de pagamentos no Brasil em 2022. Para especialistas, a disponibilização de crédito na própria interface de compra torna a transação ainda mais imediata e aumenta o risco de decisões impulsivas que levam ao endividamento.

Varejistas também criaram estratégias de marketing com promoções recorrentes — como datas repetidas (03/03, 04/04, 05/05) — e campanhas de curta duração (48 horas) com descontos de até 70% e possibilidade de parcelamento em até 21 vezes. Essas ações, segundo especialistas, geram senso de urgência e contribuem para compras rápidas, muitas vezes sem planejamento, o que pode comprometer a organização financeira no longo prazo.

O cenário reúne, portanto, a convergência de estímulos psicológicos, facilidade de pagamento e modelos de venda que encurtam o tempo entre desejo e compra, criando um ambiente propício ao acúmulo de dívidas.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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