O agronegócio brasileiro começou 2026 com desempenho positivo, mas deve enfrentar perda de fôlego nos próximos meses devido ao risco de El Niño e ao aumento dos custos de produção, especialmente de fertilizantes. Segundo dados do IBGE, a agropecuária cresceu 2% no primeiro trimestre ante o quarto trimestre de 2025, após um ano anterior em que o setor registrou alta de 12%.
Especialistas consultados alertam para dois vetores que podem reverter o ritmo de crescimento: as condições climáticas adversas associadas ao El Niño, com previsão de formação entre junho e julho, e a elevação dos preços de insumos impulsionada pela guerra no Oriente Médio. Para o economista Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro, as taxas de juros elevadas também pressionam o setor ao encarecer crédito e ampliar o endividamento dos produtores, o que tende a reduzir área plantada ou levar ao uso de tecnologias menos eficientes.
Carlos Cogo, da Cogo Inteligência em Agronegócios, lembra que o último El Niño de intensidade comparável ocorreu em 2014 e 2015 e resultou na maior quebra de safra da história do país. O fenômeno costuma provocar secas intensas no Centro-Norte e chuvas excessivas no Sul, afetando regiões-chave como o Matopiba (Tocantins, partes do Maranhão, Piauí e Bahia), Mato Grosso e Pará, além de causar danos ao cultivo de arroz no Rio Grande do Sul.
Impactos esperados e horizonte temporal
Grande parte das lavouras de grãos foi plantada antes de uma eventual confirmação do El Niño, por isso o efeito sobre a colheita deste ano tende a ser limitado. No entanto, o atraso do plantio e a necessidade de replantio podem aumentar os custos para os produtores e reduzir o volume colhido em 2027. Serigati projeta recuo de 0,9% no PIB do agronegócio para 2026.
A valorização do real frente ao dólar, somada à ampla oferta global e estoques elevados, pressiona preços das commodities e reduz a receita em reais de produtores de soja, milho, algodão e café. No segmento da pecuária, o setor começa a reter fêmeas após três anos de abates elevados, em movimento conhecido como “virada de ciclo”, com o objetivo de ampliar a produção de bezerros.
O aumento nos preços dos fertilizantes já impacta o custo de produção no campo, embora os efeitos sobre os preços ao consumidor devam se manifestar mais fortemente em 2027, segundo Serigati, porque as lavouras colhidas este ano foram adubadas com produtos adquiridos antes do início do conflito no Oriente Médio. Produtores que não conseguirem arcar com quantidades adequadas de adubo podem aplicar volumes inferiores ou trocar por insumos menos concentrados, o que reduz o potencial de produtividade e eleva custos logísticos, incluindo frete e diesel.
O conjunto dessas pressões — climática, financeira e de custos de insumos — deve limitar o avanço do setor e pode levar a uma trajetória de retração até 2027, apesar do começo de ano favorável.
Com informações de G1




