Previdência terá de voltar ao centro do debate, dizem especialistas
Especialistas consultados pelo g1 afirmam que o Brasil precisará encaminhar uma nova reforma da Previdência e que as mudanças deveriam ter começado a ser debatidas “para ontem”. Apesar da última alteração nas regras, aprovada em 2019, três fatores vêm pressionando as contas públicas e reacendendo a necessidade de novos ajustes: a alta informalidade e a transformação do mercado de trabalho; a indexação de benefícios ao salário mínimo, que registrou ganhos reais nos últimos anos; e o envelhecimento populacional aliado à queda da natalidade.
O Regime Geral de Previdência Social (RGPS), administrado pelo INSS e que inclui trabalhadores com carteira assinada e servidores não concursados, e o Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), destinado a servidores públicos efetivos, continuam sob atenção do governo. No ano passado, o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, afirmou que o sistema previdenciário está pressionado e que o tema precisará ser discutido.
Em 2025, a diferença entre a arrecadação e o total que o governo precisou complementar para pagar aposentadorias, pensões e outros benefícios foi de R$ 436 bilhões. Desse montante, mais de R$ 320 bilhões destinaram-se ao déficit do RGPS — valor R$ 17 bilhões superior ao registrado em 2024. Especialistas atribuem esse cenário, em parte, ao crescimento da informalidade e ao surgimento de ocupações que não contribuem regularmente para a Previdência, como trabalhadores de aplicativo.
Bernardo Schettini, consultor do Senado, observa que a queda na arrecadação contrasta com o avanço das despesas. Ele aponta que a política de valorização do salário mínimo pressiona os gastos em ritmo superior ao da inflação, já que mais de 60% dos benefícios são indexados ao piso nacional, e defende mudança no modelo de custeio da Previdência.
O envelhecimento da população é outro fator destacado. Leonardo Rolim, consultor da Câmara dos Deputados, alerta que, olhando para 2070 — quando quem hoje entra no mercado de trabalho deverá se aposentar —, o Brasil terá um número de idosos muito superior ao atual. Segundo ele, a projeção aponta que, em 2070, haverá cerca de seis vezes mais idosos do que em 2000. Nos últimos 25 anos, o total de pessoas em idade ativa cresceu aproximadamente 30%, enquanto o número de potenciais beneficiários mais do que dobrou, criando um descompasso entre contribuintes e beneficiários no sistema de repartição.
O aumento no número de benefícios também pressiona as contas. Pedro Souza, analista da Instituição Fiscal Independente (IFI), lembra que o total de beneficiários passou de 28,3 milhões em 2015 para 35,2 milhões em 2025, com um crescimento médio anual de 2,21% no volume de benefícios emitidos. Em termos reais (valores de janeiro de 2026), o déficit da Previdência subiu de R$ 147,5 bilhões em 2015 para R$ 323,1 bilhões em 2025. As despesas totais alcançaram R$ 1,04 trilhão em 2025.
Segundo Souza, a receita do RGPS cresceu, em média real, 1,82% ao ano na última década, enquanto a despesa avançou cerca de 3,37% ao ano, quase o dobro, o que torna a trajetória de financiamento do sistema insustentável sem ajustes. Projeções do governo federal indicam que o déficit do RGPS pode mais do que quadruplicar ao longo dos próximos 75 anos.
Especialistas ouvidos concluem que as pressões demográficas, o aumento do número de beneficiários e a estrutura atual de financiamento tornam inevitável a necessidade de novos debates e medidas sobre a Previdência.
Com informações de G1




