Pressão e ansiedade afetam decisões e rendimento tanto em campo quanto no trabalho
Após o empate por 1 a 1 com o Marrocos na estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026, jogadores e o técnico Carlo Ancelotti atribuíram a ansiedade a um dos fatores que explicam a atuação abaixo do esperado da Seleção. “Um pouco de ansiedade, acho que sim. Na primeira etapa, eles saíam da pressão e faziam transições perigosas. Podíamos ter mais controle”, afirmou Ancelotti. Laterais Danilo e Ibañez também apontaram a ansiedade como complicador da performance na partida.
Especialistas consultados pelo G1 destacam que emoções como ansiedade influenciam tomada de decisão, atenção e rendimento em competições de alto nível — e que essa dinâmica já se espelha fora dos estádios. A sensação constante de avaliação, a pressão por resultados rápidos, o medo de errar e a dificuldade de “desligar” do papel profissional são experiências comuns a atletas e a milhões de trabalhadores.
Enquanto no esporte de elite a preparação psicológica foi incorporada à rotina de treinos como elemento estratégico de desempenho, nas empresas a atenção à saúde emocional costuma ocorrer tardiamente, quando o desgaste já se tornou problema. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em vigor desde 26 de maio, exige que empregadores identifiquem, previnam e gerenciem riscos psicossociais relacionados ao trabalho, como sobrecarga, assédio e pressão excessiva.
Dados globais e nacionais mostram o impacto da pressão contemporânea. O Work Relationship Index, da HP, com 18,2 mil profissionais em 14 países — incluindo o Brasil — indica que apenas 29% dos trabalhadores estão na “Zona Saudável”, enquanto 34% se encontram na “Zona Crítica”, associada a desgaste emocional significativo. No Brasil, 71% dos entrevistados afirmaram que as exigências no trabalho aumentaram no último ano. Em 2025, o país registrou mais de 546 mil concessões de benefícios por incapacidade temporária ligadas a transtornos mentais, segundo o Ministério da Previdência Social, com ansiedade, depressão e reações ao estresse grave entre as principais causas de afastamento.
O pesquisador da USP Gustavo Drago, que participou da preparação de atletas olímpicos em Pequim, Londres e Rio, diz que a diferença está na percepção da pressão. Ao acompanhar atletas de 16 modalidades, Drago observou que indivíduos sob as mesmas condições podem reagir fisiológica, emocional e comportamentalmente de formas opostas. Alguns interpretam o ambiente adverso como ameaça — com elevação do cortisol, alterações no sistema imunológico e respostas mais hesitantes —; outros veem a pressão como estímulo, com aumento da testosterona livre e respostas mais intensas.
Drago relaciona esse fenômeno ao conceito de “cérebro preditivo”: o cérebro reage às previsões que faz sobre o ambiente, não só aos estímulos imediatos. Quando interpreta a realidade como ameaça constante, o cérebro direciona recursos à autoproteção, dividindo a atenção entre a tarefa e pensamentos sobre erro, julgamento ou perda de espaço. Essa resposta reduz criatividade, prejudica decisões, aumenta ansiedade e favorece comportamentos defensivos como procrastinação e perfeccionismo excessivo.
Para o sócio‑líder de Auditoria da CLA Brasil, Thiago Brehmer, a avaliação permanente é reforçada por estruturas organizacionais com metas de curto prazo e culturas que veem o erro como falha de caráter, o que amplia medo e insegurança. A hiperconectividade adicionou camadas à pressão: julgamento em tempo real nas redes sociais para atletas e métricas, exposição digital e comparação constante para profissionais, gerando a sensação de que é preciso performar o tempo todo.
No alto rendimento, frentes de preparação mental — como técnicas de visualização, controle emocional, foco atencional e recuperação pós‑erro — visam reduzir a imprevisibilidade e tornar situações críticas mais familiares. No ambiente corporativo, essas estratégias começam a ser adotadas, embora de forma menos sistemática. Visualizações e foco em variáveis controláveis (preparo, clareza, execução) ajudam a diminuir a sensação de ameaça e a melhorar concentração e eficiência mental.
A frustração por objetivos não alcançados tem efeitos semelhantes em atletas e profissionais. Ficar fora de uma convocação após anos de preparação provoca ruptura emocional, assim como perder uma promoção ou oportunidade no trabalho. Segundo especialistas, o risco é transformar um episódio de frustração em definição de identidade — do “não consegui” para o “não sou capaz” —, o que pode levar a adoecimento mental.
No esporte de alto rendimento, descanso e recuperação são parte da estratégia para evitar queda de rendimento e burnout; já em muitos ambientes corporativos persiste a associação entre produtividade e disponibilidade constante. Brehmer alerta que “o cérebro humano não foi feito para operar continuamente sob ameaça”, e Drago afirma que a permanência prolongada em estado de alerta compromete a performance. A performance sustentável, dizem os especialistas, depende de confiança, autonomia, segurança psicológica e senso de pertencimento — lições que o esporte de alto nível apresenta ao mundo do trabalho.
Com informações de G1




