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terça-feira, novembro 3, 2026

El Niño com alta probabilidade de intensificação ameaça safras tropicais

Um El Niño cada vez mais provável de se tornar muito forte no segundo semestre do ano eleva riscos para a produção agrícola em várias regiões tropicais. Especialistas e instituições meteorológicas apontam que o aquecimento no Pacífico deve alterar temperaturas e padrões de chuva, afetando culturas como cacau, café e açúcar.

O El Niño é um aquecimento periódico da superfície do Pacífico oriental, provocado pelo enfraquecimento dos ventos alísios. O fenômeno ocorre naturalmente a cada dois a sete anos e costuma durar entre nove e 12 meses. Geralmente traz elevação das temperaturas globais, seca em áreas como Sul e Sudeste da Ásia, Austrália e África Austral e chuvas intensas em partes do sul da América do Sul e dos Estados Unidos.

Na semana passada, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a chegada do El Niño e informou que há 63% de probabilidade de o evento atingir níveis considerados muito fortes — um “super El Niño” — até 2027.

Produtores já sentem o impacto potencial do fenômeno em um ano marcado por choques nos preços de fertilizantes e do diesel, atribuídos no artigo à guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Episódios anteriores de El Niño costumam elevar os preços das commodities agrícolas.

Cacau

Segundo a gestora de investimentos WisdomTree, todos os El Niños fortes dos últimos 55 anos reduziram a produção mundial de cacau. No episódio entre meados de 2023 e meados de 2024 — classificado como moderado a forte — a África Ocidental, principal área produtora, sofreu inicialmente chuvas cerca de duas vezes acima do normal, favorecendo doenças fúngicas. Em 2024, o padrão mudou: a região enfrentou calor intenso e ventos Harmattan anormalmente secos e fortes, que fizeram as árvores doentes perderem flores. “Todo mundo acha que o El Niño está associado apenas a secas na África Ocidental. Isso não é necessariamente verdade. Devido às mudanças climáticas… o resultado, às vezes, é chuva inicial em excesso. No momento, essa é minha maior preocupação”, afirmou Jim Roemer, da consultoria Best Weather.

Cerca de metade do cacau mundial é produzida pela Costa do Marfim e por Gana. O Equador, terceiro maior produtor em condições normais, também costuma registrar chuvas excessivas durante El Niño. Em 2024, os preços do cacau quase triplicaram após a quebra da safra na África Ocidental, chegando a mais de US$ 12.000 por tonelada métrica no fim do ano, patamar recorde.

Café

O El Niño tende a ser especialmente prejudicial ao café robusta, porque aumenta temperaturas e reduz chuvas no Vietnã e na Indonésia — primeiro e terceiro maiores produtores mundiais — a partir da metade do ano. Esses países respondem juntos por cerca de 50% da produção global de robusta, e os efeitos costumam ser percebidos a partir do quarto trimestre, durante a colheita. “A seca no Vietnã e na Indonésia pode reduzir significativamente a produtividade do café robusta”, afirmaram analistas do Citi.

Para o café arábica, cuja produção tem quase metade proveniente do Brasil, o efeito inicial do El Niño pode ser positivo: temperaturas mais altas afastam o risco de geadas na safra que está sendo colhida. Carlos Santana, diretor comercial da Eisa, subsidiária da trading Ecom, destacou esse ponto. No entanto, a tendência histórica é de que o El Niño traga secas e calor às regiões cafeeiras brasileiras no quarto trimestre, período de desenvolvimento da próxima safra, o que pode prejudicar a produção em 2027.

Açúcar

No caso do açúcar, o fenômeno costuma provocar chuvas excessivas no segundo semestre no Brasil — maior produtor mundial — o que pode atrapalhar a colheita e reduzir a qualidade da safra. Por outro lado, na Índia (segundo maior produtor) e na Tailândia (segundo maior exportador) o El Niño costuma reduzir as precipitações durante a monção de verão.

A Índia projeta que a monção de 2026 traga o menor volume de chuva em 11 anos, com precipitação no período de desenvolvimento da safra (junho a setembro) estimada em cerca de 90% da média. Carlos de Mello, diretor de açúcar da corretora Hedgepoint, calcula que mesmo um El Niño moderado pode reduzir a produção indiana em cerca de 1 milhão de toneladas. A longo prazo, as chuvas acima da média que o El Niño costuma trazer às regiões açucareiras brasileiras podem favorecer a safra de 2027. “De modo geral, é difícil imaginar um cenário de alta no mercado com o El Niño”, disse Mello, citando os potenciais efeitos positivos para a produção brasileira. O Brasil responde por cerca de metade das exportações mundiais de açúcar.

As previsões de intensificação do El Niño, segundo autoridades e analistas citados, indicam vigilância por parte dos produtores e do mercado, diante do histórico de impactos sobre oferta e preços das principais commodities agrícolas.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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