Um El Niño cada vez mais provável de se tornar muito forte no segundo semestre do ano eleva riscos para a produção agrícola em várias regiões tropicais. Especialistas e instituições meteorológicas apontam que o aquecimento no Pacífico deve alterar temperaturas e padrões de chuva, afetando culturas como cacau, café e açúcar.
O El Niño é um aquecimento periódico da superfície do Pacífico oriental, provocado pelo enfraquecimento dos ventos alísios. O fenômeno ocorre naturalmente a cada dois a sete anos e costuma durar entre nove e 12 meses. Geralmente traz elevação das temperaturas globais, seca em áreas como Sul e Sudeste da Ásia, Austrália e África Austral e chuvas intensas em partes do sul da América do Sul e dos Estados Unidos.
Na semana passada, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a chegada do El Niño e informou que há 63% de probabilidade de o evento atingir níveis considerados muito fortes — um “super El Niño” — até 2027.
Produtores já sentem o impacto potencial do fenômeno em um ano marcado por choques nos preços de fertilizantes e do diesel, atribuídos no artigo à guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Episódios anteriores de El Niño costumam elevar os preços das commodities agrícolas.
Cacau
Segundo a gestora de investimentos WisdomTree, todos os El Niños fortes dos últimos 55 anos reduziram a produção mundial de cacau. No episódio entre meados de 2023 e meados de 2024 — classificado como moderado a forte — a África Ocidental, principal área produtora, sofreu inicialmente chuvas cerca de duas vezes acima do normal, favorecendo doenças fúngicas. Em 2024, o padrão mudou: a região enfrentou calor intenso e ventos Harmattan anormalmente secos e fortes, que fizeram as árvores doentes perderem flores. “Todo mundo acha que o El Niño está associado apenas a secas na África Ocidental. Isso não é necessariamente verdade. Devido às mudanças climáticas… o resultado, às vezes, é chuva inicial em excesso. No momento, essa é minha maior preocupação”, afirmou Jim Roemer, da consultoria Best Weather.
Cerca de metade do cacau mundial é produzida pela Costa do Marfim e por Gana. O Equador, terceiro maior produtor em condições normais, também costuma registrar chuvas excessivas durante El Niño. Em 2024, os preços do cacau quase triplicaram após a quebra da safra na África Ocidental, chegando a mais de US$ 12.000 por tonelada métrica no fim do ano, patamar recorde.
Café
O El Niño tende a ser especialmente prejudicial ao café robusta, porque aumenta temperaturas e reduz chuvas no Vietnã e na Indonésia — primeiro e terceiro maiores produtores mundiais — a partir da metade do ano. Esses países respondem juntos por cerca de 50% da produção global de robusta, e os efeitos costumam ser percebidos a partir do quarto trimestre, durante a colheita. “A seca no Vietnã e na Indonésia pode reduzir significativamente a produtividade do café robusta”, afirmaram analistas do Citi.
Para o café arábica, cuja produção tem quase metade proveniente do Brasil, o efeito inicial do El Niño pode ser positivo: temperaturas mais altas afastam o risco de geadas na safra que está sendo colhida. Carlos Santana, diretor comercial da Eisa, subsidiária da trading Ecom, destacou esse ponto. No entanto, a tendência histórica é de que o El Niño traga secas e calor às regiões cafeeiras brasileiras no quarto trimestre, período de desenvolvimento da próxima safra, o que pode prejudicar a produção em 2027.
Açúcar
No caso do açúcar, o fenômeno costuma provocar chuvas excessivas no segundo semestre no Brasil — maior produtor mundial — o que pode atrapalhar a colheita e reduzir a qualidade da safra. Por outro lado, na Índia (segundo maior produtor) e na Tailândia (segundo maior exportador) o El Niño costuma reduzir as precipitações durante a monção de verão.
A Índia projeta que a monção de 2026 traga o menor volume de chuva em 11 anos, com precipitação no período de desenvolvimento da safra (junho a setembro) estimada em cerca de 90% da média. Carlos de Mello, diretor de açúcar da corretora Hedgepoint, calcula que mesmo um El Niño moderado pode reduzir a produção indiana em cerca de 1 milhão de toneladas. A longo prazo, as chuvas acima da média que o El Niño costuma trazer às regiões açucareiras brasileiras podem favorecer a safra de 2027. “De modo geral, é difícil imaginar um cenário de alta no mercado com o El Niño”, disse Mello, citando os potenciais efeitos positivos para a produção brasileira. O Brasil responde por cerca de metade das exportações mundiais de açúcar.
As previsões de intensificação do El Niño, segundo autoridades e analistas citados, indicam vigilância por parte dos produtores e do mercado, diante do histórico de impactos sobre oferta e preços das principais commodities agrícolas.
Com informações de G1




