Lead: O café deixou de ser visto por setores religiosos como uma bebida suspeita para tornar-se metáfora central em uma nova leva de livros devocionais. O fenômeno ganhou força a partir do sucesso de Café com Deus Pai, cuja primeira edição, em 2023, consagrou o pastor, teólogo e autor Junior Rostirola como o escritor brasileiro mais vendido daquele ano.
O fenômeno editorial
Nas prateleiras das livrarias, títulos com a palavra “café” proliferam em seções que unem espiritualidade e autoajuda: há obras como Café com Nossa Senhora, Café com Jesus, Café com os Santos, Café com as Mulheres da Bíblia, Café com Deus, Café com a Virgem Maria e até Café com Exu. A imagem do café funciona como símbolo de pausa e conversa, ideia explorada por autores e editoras em busca de leitores.
Rostirola, pastor da Igreja Reviver em Itajaí (SC), afirmou por escrito que o título nasceu da intenção de transmitir a ideia de um momento de encontro cotidiano com Deus, uma pausa informal em meio à rotina. Especialistas em mercado editorial apontam que, além do conceito, o alcance do autor e o formato de mensagens diárias foram determinantes para as altas vendas. Segundo a jornalista Lilian Cardoso, o livro já ultrapassou 10 milhões de exemplares.
Breve história do consumo
Os primeiros registros escritos sobre o uso do café remontam à segunda metade do século 6, em narrativas ligadas à Etiópia, onde um pastor teria percebido efeitos da planta sobre seu rebanho. A torrefação do fruto parece ter surgido por volta do século 14, possivelmente entre monges da Igreja Ortodoxa Etíope, que teriam notado o aroma após torrar os frutos. No século 15, muçulmanos sufis do Iêmen passaram a usar a bebida para manter vigilância em orações noturnas, e o termo árabe “qahwah” deu origem ao nome café.
O consumo alcançou a Europa possivelmente no século 16, por intermédio da Turquia, com registros na Turquia a partir de 1453 e entrada no Ocidente por cidades como Veneza. A bebida enfrentou resistência de parte do clero católico, que a tratou como “vinho do diabo” até que, segundo relatos tradicionais, o papa Clemente VIII (1536-1605) não se opôs ao seu consumo, o que teria contribuído para a aceitação no mundo ocidental a partir do século 17.
Proibições e orientações religiosas
O café também foi alvo de proibições em diferentes contextos. Na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (mórmons), uma revelação escrita por Joseph Smith (1805-1844) datada de 27 de fevereiro de 1833 afirma: “condena-se o uso de vinho, bebidas fortes, tabaco e bebidas quentes”. A interpretação tradicional inclui café e chá preto entre os itens desencorajados.
Em 2023, o historiador Keith Erekson, ligado à igreja dos mórmons, explicou que a orientação visa promover o cuidado com o corpo físico e, assim, favorecer bem-estar e recompensas espirituais. A Igreja Adventista do Sétimo Dia não proíbe formalmente o café, mas recomenda a abstinência, com justificativas relacionadas à preservação da saúde; Lanny Cristina Burlandy Soares, diretora associada do departamento de saúde da denominação para a América do Sul, ressalta que a orientação está alinhada à visão adventista de cuidado integral com o corpo.
Expansão temática
O uso da imagem do café extrapola o cristianismo. O psicólogo Rubens Oliveira lançou Café com Exu para dialogar com tradições de matriz africana, enquanto autores como a bispa Jeiza Pontes adaptam a linguagem do “café” em obras de mensagens breves voltadas a temas como cura e saúde mental. Para representantes de diferentes denominações, a metáfora do cafezinho é uma forma eficaz de comunicar acolhimento, proximidade e um convite à reflexão diária.
O café, portanto, percorre uma trajetória que vai de bebidas polêmicas associadas a inimigos religiosos a símbolo de intimidade espiritual e sucesso editorial.
Com informações de G1




