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terça-feira, outubro 13, 2026

Pesquisadora do Ipea traça perfil das mais de 10,9 milhões de mães solo no Brasil e aponta quedas de renda e proteção social

Mariene Ramos, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), estudou o mercado de trabalho das mães solo no Brasil a partir da PNAD Contínua de 2022 e descreveu um quadro marcado por menores rendimentos, maior precariedade de vínculos e concentração em atividades de baixo salário.

Nascida em Ponte Alta do Bom Jesus (TO), Mariene mudou-se aos 7 anos com a família para o Distrito Federal por causa de doença de um irmão mais novo. Após a morte do menino e a aposentadoria precoce do pai em razão de um acidente de trabalho, a mãe passou a completar a renda cuidando de crianças na periferia de Brasília. Essas experiências pessoais motivaram Mariene, hoje com 36 anos, a pesquisar as condições de trabalho de mulheres que criam filhos sem cônjuge.

No mestrado em políticas públicas, orientado por Carlos Corseuil e Marcos Hecksher, a pesquisadora definiu “mães solo” como mulheres chefes de domicílio com filhos e sem cônjuge. Em 2022, esse grupo somava mais de 10,9 milhões de pessoas, número equivalente à população de países como Portugal ou Bélgica.

Os dados mostram desigualdades relevantes: o rendimento médio das mães solo foi de R$ 2.322 em 2022, quase 40% inferior ao dos pais com cônjuge (R$ 3.869) e 11,5% menor que a média das mães com cônjuge. A taxa de ocupação das mães solo foi de 50,2%, contra 81% dos pais com cônjuge e 53,2% das mães com cônjuge. A contribuição previdenciária alcançou apenas 28,3% das mães solo, frente a 54,8% dos pais com cônjuge e 34,7% das mães com cônjuge, indicando fragilidade na proteção social de longo prazo.

Há também forte concentração setorial: 21,9% das mães solo trabalham no serviço doméstico, proporção bem maior que a das mães com cônjuge (11,8%) e quase 27 vezes superior à dos pais com cônjuge (0,8%). Segundo a pesquisadora, isso evidencia que essas mulheres estão frequentemente alocadas em setores menos remunerados.

A escolaridade é outro fator relevante. Pouco mais de 55% das mães solo têm, no máximo, o ensino médio incompleto, patamar superior ao de pais com cônjuge (46,6%), mães com cônjuge (39,9%) e mulheres sem filhos (47,9%), ficando atrás apenas dos pais solo (61,4%). Apenas 13,7% concluíram o ensino superior, contra 22,1% das mulheres sem filhos e 19,9% das mães com cônjuge.

Em termos raciais, 62% das mães solo são negras (14% pretas e 47% pardas), enquanto 37% são brancas e 2% se declaram de outras raças ou cor. A proporção de negras nesse grupo é maior que a observada em outros arranjos familiares.

Mariene chama atenção ainda para a situação da “geração sanduíche”: 33,5% das mães solo moram com pessoas com 60 anos ou mais — mais que o dobro das mães com cônjuge (15,7%) e superior aos pais com cônjuge (19,4%) — o que pode aumentar a carga de cuidados simultâneos.

Sobre apoio estatal, 57% das mães solo recebem algum benefício social, percentual elevado em comparação com pais com cônjuge (19%), mães com cônjuge (34%), pais solo (49,9%) e mulheres sem filhos (48,6%). A pesquisadora relaciona essa dependência ao fracasso do mercado de trabalho em prover renda adequada.

Para reverter o cenário, Mariene defende ampliação de vagas em creches em tempo integral e investimento em qualificação profissional. Dados da ONG Todos pela Educação apontam que, em 2024, 41,2% das crianças de até 3 anos tinham acesso à creche (30,6% entre as famílias mais pobres e 60% entre as mais ricas), e cerca de 2,3 milhões de crianças dessa faixa etária estavam fora da creche por falta de vagas ou distância.

Além disso, estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP (Made-USP), com base na PNAD Contínua de 2019, mostrou que as mulheres trabalham, em média, 58,1 horas semanais somando trabalho remunerado e não remunerado, contra 50,3 horas dos homens; a carga não remunerada feminina chega a 21,3 horas por semana, ante 8,8 horas masculinas. O estudo foi lançado neste domingo (8/3), por ocasião do Dia Internacional da Mulher.

Mariene conclui que, para ampliar as oportunidades dessas 11 milhões de mães solo, é necessário combinar políticas de cuidado, oferta de creches e qualificação profissional, de modo a promover inserção no mercado de trabalho com menos precariedade.

Com informações de G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://reportermarechal.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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