Descoberta em poço Morpho é promissora, mas benefícios dependem de mudança no regime de exploração, diz Ildo Sauer
O professor Ildo Sauer, do Instituto de Energia e Ambiente da USP e ex-diretor da Petrobras, afirmou que a identificação de petróleo no poço Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, é uma notícia “muito animadora”, mas que ainda há muitas incertezas técnicas e políticas sobre quem será beneficiado pela eventual produção. A avaliação foi dada em entrevista à BBC News Brasil.
A Petrobras comunicou ter encontrado óleo em águas ultraprofundas a cerca de 175 km da costa do Amapá. Sauer salientou que os indícios iniciais apontam para a presença de óleo leve, de maior valor comercial, porém alertou que é cedo para dimensionar reservas e que são necessárias várias etapas para confirmar e desenvolver o campo.
Segundo o engenheiro, o procedimento típico inclui a perfuração de um segundo poço exploratório para confirmar a descoberta e permitir uma estimativa preliminar do volume. Em seguida, a empresa deve informar a Agência Nacional do Petróleo (ANP), que pode autorizar um plano de avaliação. Estudos geológicos, geofísicos e econômicos são exigidos antes da declaração de viabilidade comercial; somente então um plano de desenvolvimento pode ser elaborado e aprovado. Sauer afirmou que, usualmente, leva no mínimo quatro anos para chegar ao início do desenvolvimento e estimou um horizonte de cinco a sete anos até que o óleo esteja efetivamente no mercado.
O principal ponto levantado pelo ex-diretor não é a exploração em si, mas o modelo de partilha de renda associado à atividade petrolífera. Sauer criticou o arranjo adotado para o pré-sal nas últimas duas décadas, que, na sua avaliação, impediu que a riqueza do subsolo fosse convertida em investimentos de largo impacto social. “Não foi um passaporte para o futuro”, disse, referindo-se à promessa feita na época da abertura do pré-sal em 2006.
Ele defende maior controle estatal da exploração, por meio da Petrobras, e o uso dos excedentes para financiar um plano nacional de desenvolvimento — com aplicação em educação pública, saúde, previdência, reforma urbana e agrária, além de investimentos em tecnologias para uma transição energética gradual. Como alternativa ao modelo vigente, propõe a utilização de um dispositivo da Lei nº 12.351/2010 para permitir a contratação direta da Petrobras pela União em um regime semelhante à prestação de serviços, no qual a empresa receberia apenas retribuição pelos custos de produção e o excedente econômico ficaria com o Tesouro Nacional.
Sauer também comentou o impacto geopolítico do achado. Para ele, o pré-sal já elevou a presença do Brasil na geopolítica do petróleo e, caso a Margem Equatorial confirme reservas significativas, o país pode ampliar esse protagonismo. Ainda assim, ponderou que, hoje, o Brasil atua principalmente como tomador de preços no mercado internacional e tem participação limitada nos mecanismos que definem a oferta global. “A Margem Equatorial ainda é um pássaro voando”, ressaltou, lembrando que a descoberta precisa ser confirmada e desenvolvida antes de ter efeitos concretos.
O histórico de Sauer inclui o cargo de diretor da Petrobras entre janeiro de 2003 e setembro de 2007. Ele afirmou, ao depor na CPI da Petrobras em 2014, que sua saída da estatal ocorreu por divergências políticas e administrativas, e não por ligação com os esquemas de corrupção posteriormente revelados pela Operação Lava Jato.
Com informações de G1




