Ex-diretor afirma que decisões de Mark Zuckerberg reduziram foco na proteção de crianças
Um ex-diretor de engenharia da Meta Platforms afirmou em tribunal nesta quarta-feira, 19 de agosto de 2026, que o CEO Mark Zuckerberg criou uma cultura empresarial que teria levado a companhia a relegar a segurança de crianças no Facebook e no Instagram a uma posição secundária. Arturo Bejar, que trabalhou na empresa entre 2009 e 2015, relatou que muitas mudanças de produto só avançavam após aprovação direta do presidente da Meta.
“Se Mark prioriza algo, montanhas se movem em poucos meses”, disse Bejar ao depor. Ele foi a primeira testemunha de um julgamento considerado histórico, que tramita em um tribunal federal em Oakland, na Califórnia, e que deve durar cerca de seis semanas, com expectativa de que Zuckerberg também preste depoimento.
O processo foi movido por uma coalizão de estados americanos que acusa a Meta de projetar suas plataformas para estimular uso compulsivo entre jovens e de coletar ilegalmente dados de crianças menores de 13 anos. Entre os estados autores da ação estão Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey, que, segundo os autos, alegam que Facebook e Instagram incentivaram uso excessivo por adolescentes, contribuindo para ansiedade, depressão e pensamentos suicidas. Esses estados, juntamente com outros 25, também afirmam que a empresa enganou consumidores sobre a segurança das plataformas e violou leis federais ao tratar dados pessoais de crianças.
Bejar, que passou a integrar uma equipe que pesquisou a experiência de adolescentes no Instagram entre 2019 e 2021, disse ser um dos principais críticos publicamente das políticas da Meta para crianças. Em depoimento ao Senado dos EUA em 2023, ele afirmou que a empresa tinha conhecimento de casos de assédio e outros problemas enfrentados por adolescentes, sem adotar medidas suficientes.
No tribunal, Bejar afirmou que métricas como engajamento e número de usuários ativos diários eram usadas para avaliar e recompensar funcionários, o que, segundo ele, privilegiava crescimento e lucratividade em relação à segurança. Citou também que um recurso para incentivar pausas no uso — frequentemente mencionado pela Meta em sua defesa — foi “projetado para falhar”: não vem ativado por padrão e seus lembretes são fáceis de ignorar.
“Tudo depende de como o tempo de desenvolvimento dos produtos é distribuído”, afirmou Bejar, acrescentando que, nesse contexto, “a segurança sempre ficou em segundo plano”. Ele relatou ainda que a empresa dispunha de tecnologia capaz de identificar usuários possivelmente menores de 13 anos e exigir verificações adicionais, mas optava por não aplicar essa verificação em larga escala, num comportamento que descreveu como “não pergunte, não conte”, por entender que manter esses usuários era vantajoso financeiramente.
Especialistas citados no caso consideram o julgamento como o maior teste judicial sobre os efeitos das redes sociais entre jovens. A Meta recusou as acusações e afirmou que as declarações de Bejar extrapolam o alcance de suas funções na empresa. Bejar já havia atuado como testemunha em três processos anteriores que chegaram a julgamento; em um caso no Novo México, a empresa foi condenada a pagar US$ 942 milhões em indenizações e multas e a cumprir uma ordem judicial para alterar suas plataformas no estado.
O julgamento segue em andamento no tribunal federal de Oakland, com previsão de duração de cerca de seis semanas e com possibilidade de novas testemunhas e depoimentos, incluindo o do CEO.
Com informações de G1




