Petrobras e Pemex fecham acordo inicial para cooperação em óleo e biocombustíveis
Petrobras e Pemex firmaram um memorando de entendimento, válido por dois anos, para cooperar na exploração e produção de hidrocarbonetos. As empresas também celebraram um segundo acordo voltado ao refino e à comercialização de biocombustíveis, incluindo o etanol. O anúncio foi marcado por uma videochamada entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Claudia Sheinbaum, que manifestaram apoio à parceria.
Especialistas consultados pela DW avaliaram que a complementaridade técnica entre as estatais existe, mas alertaram para barreiras políticas e econômicas que podem limitar a execução dos projetos. Segundo Adriano Pires, consultor brasileiro de energia e doutor em Economia Industrial pela Universidade Sorbonne Paris Norte, a Petrobras atualmente detém tecnologia para exploração em águas profundas, enquanto a Pemex tem limitações tecnológicas apesar de conhecer o território mexicano.
Gonzalo Monroy, CEO da consultoria GMEC, reforça a ideia de que o Brasil tem experiência em operações sob depósitos de sal, como na Bacia de Santos, e que há potencial similar no Golfo do México. No entanto, ele destacou um ponto crítico: o memorando é não vinculativo, o que significa que nenhuma das partes está obrigada a aportar recursos financeiros.
Elio Ohep, consultor independente e editor do site Energies.net, considerou que a parceria pode ser vantajosa, mas apenas a longo prazo — apontando prazos de cinco, dez ou até 15 anos para que benefícios efetivos sejam colhidos. Ohep também observou que a divulgação do acordo, por parte da presidente mexicana, deu a impressão de que o processo estava concluído, quando na prática trata-se de um entendimento preliminar com validade de dois anos.
Monroy ressaltou obstáculos legais e comerciais no México decorrentes de mudanças na legislação promovidas por Andrés Manuel López Obrador, que, segundo ele, deixam poucas opções atraentes para trazer rentabilidade à Petrobras em solo mexicano. As estruturas previstas em lei, como contratos de prestação de serviços ou joint ventures, não seriam suficientes para garantir retorno adequado aos investimentos, afirmou.
O segundo documento, sobre biocombustíveis, recebeu avaliação periférica dos especialistas. Adriano Pires lembrou que, no Brasil, a produção de etanol é majoritariamente do setor privado e que o produto é misturado à gasolina por distribuidores; Pires também é fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e foi sondado em 2022 para chefiar a Petrobras, oferta que recusou. Monroy acrescentou que há pressão externa — dos Estados Unidos, grande produtor de etanol de milho, e do Brasil, produtor de etanol de cana — para a abertura do mercado mexicano a misturas.
Especialistas observam ainda motivações políticas no anúncio. Pires afirmou que a divulgação recente da descoberta de petróleo na foz do Amazonas, celebrada com a presença de Lula, ocorreu em ano eleitoral e estimou que serão necessários pelo menos mais quatro anos de estudos para avaliar a viabilidade comercial do depósito. Ohep opinou que a continuidade da aliança entre as estatais estará condicionada à reeleição de Lula, enquanto Pires lembrou que mudanças de governo podem alterar o rumo de acordos entre empresas estatais.
O histórico de acordos entre estatais também alimenta o ceticismo. Ohep afirmou que muitos memorandos de entendimento acabam não saindo do papel. Pires citou a parceria anterior entre Petrobras e a estatal venezuelana PDVSA, desenvolvida nos governos de Lula e Hugo Chávez, que resultou na refinaria de Recife — projeto que ele classificou como o mais caro do mundo e afetado pelas investigações da Lava Jato — e que, segundo ele, não contou com aporte de capital venezuelano nem trouxe benefícios claros para a Petrobras. Por isso, Pires alertou para os riscos de combinar governos de esquerda e companhias estatais, afirmando que o acordo reúne ingredientes que podem resultar em problemas.
O desdobramento prático dos entendimentos dependerá de decisões futuras, investimentos e da evolução das condições legais e políticas em ambos os países.
Com informações de G1




