Grandes empresas de tecnologia têm adotado, nas últimas semanas, mecanismos para sinalizar e possibilitar denúncias de publicações produzidas por inteligência artificial (IA). A mudança envolve recursos para que usuários marquem conteúdos suspeitos e sistemas automáticos que apontam quando textos, imagens ou vídeos foram criados ou editados com a ajuda da tecnologia.
Especialistas consultados pelo G1 apontam que a movimentação é motivada por pressões regulatórias, tentativas de melhorar a qualidade dos feeds e riscos ao modelo de negócio das plataformas. A facilidade de uso das ferramentas de IA e a produção em massa de material de baixa qualidade — apelidada por analistas de “AI slop” — aceleraram a adoção desses rótulos e controles.
Segundo Elizabeth Saad, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) e pesquisadora de IA, a simplicidade das ferramentas tem levado muita gente a produzir conteúdos rapidamente, o que aumentou a circulação de posts com qualidade questionável.
Entre as iniciativas recentes, o LinkedIn passou a exibir um botão para reportar publicações geradas por IA, identificado em português como “Parece lixo de IA”. A empresa informou que desenvolve classificadores para reduzir a presença desse tipo de conteúdo nas recomendações e fora da rede imediata de cada usuário.
A plataforma de newsletters Substack anunciou uma funcionalidade que estima, em porcentagem, quanto de um texto foi escrito por IA, em parceria com o software Pangram. O Claude, concorrente do ChatGPT, divulgou que vai marcar textos e imagens produzidos por sua tecnologia para atender ao AI Act da União Europeia. E o Snapchat informou, no fim de julho, que deixará de recomendar publicações totalmente geradas por IA em seu feed Spotlight, mantendo elegíveis para recomendação apenas conteúdos aprimorados ou editados com IA, que também terão indicadores de transparência.
Em maio, o Google anunciou que adotaria o SynthID, tecnologia para identificar imagens e vídeos criados por IA, em produtos de empresas parceiras como OpenAI, Kakao e ElevenLabs. O YouTube passou a retirar a monetização de vídeos considerados genéricos e repetitivos produzidos com IA, segundo reportagem do portal Mashable, classificando como relevantes apenas vídeos que ofereçam histórias, explicações ou ensinamentos novos.
Além disso, TikTok e Instagram já permitem que autores sinalizem, em suas próprias publicações, o uso de IA. De acordo com Edney Souza, professor da educação continuada da ESPM, a onda de anúncios entre maio e julho ocorreu próxima à vigência, em 2 de agosto, do artigo 50 do AI Act, que exige identificação clara de conteúdo gerado ou manipulado por IA para usuários europeus. Souza afirma que as plataformas também têm preocupações financeiras e jurídicas ligadas à proliferação de conteúdo artificial não identificado.
O risco reputacional também motivou mudanças: o Google suspendeu um recurso do Google Earth capaz de gerar imagens a partir de registros de satélite depois de detectar uso para criar cenas falsas em contextos de desinformação, informando que o recurso seria revertido enquanto proteções mais robustas são implementadas.
Pesquisadores ouvidos destacam que a relação entre detectores e modelos de IA deve se manter dinâmica, com ferramentas de identificação evoluindo conforme surgem novas gerações de modelos de geração de conteúdo. As medidas anunciadas por diferentes serviços indicam a continuidade dessa tendência.
Com informações de G1




