Rio de Janeiro/São Paulo — A perícia da Polícia Federal descreve uma operação organizada no Banco Master para produzir em massa documentos falsos e ocultar evidências de sua origem. Segundo o relatório técnico-pericial, a produção combinou extração de dados reais de clientes, geração automática de documentos no Microsoft Word, edição de PDFs por meio de programas desenvolvidos pela área de tecnologia e assinatura digital dos arquivos, em processos realizados entre junho e julho de 2025.
Quem, o que e como
Funcionários da área de tecnologia e do back office extraíram informações cadastrais de clientes de sistemas internos, incluindo registros relacionados ao produto CredCesta. Em 2 de julho de 2025, às 14h05, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da TI, levantamento de CPFs via Microsoft Teams. Vinicius compilou os CPFs no arquivo cpf_cessao.csv e, em seguida, executou a consulta Contratos_Henrique_Dados.sql. O resultado foi exportado para a planilha Dados_cessão.xlsx, enviada por e-mail a Fabrizio e à equipe em 3 de julho, às 16h57.
Com essa base, a etapa seguinte consistiu em gerar documentos em lote. Em 20 de junho de 2025, Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, usou a mala direta do Microsoft Word para vincular o modelo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx — armazenada na pasta Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras — gerando 2.700 procurações de uma só vez.
Programação e separação de páginas
Desenvolvedores do banco registraram aplicações em C# no repositório GitHub do Master para automatizar o tratamento de PDFs. Uma função criada tinha como objetivo extrair apenas a segunda página dos arquivos, correspondente às páginas de assinatura. A perícia localizou também um arquivo compactado chamado erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior, que continha 1.833 PDFs com páginas de assinatura isoladas.
As Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) foram extraídas em lotes do sistema idtrust por Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva. Em 20 de junho, Fabrizio organizou uma força-tarefa para a aplicação das assinaturas digitais: foram separados 675 CCBs para cada um de quatro operadores — Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma — e as assinaturas foram aplicadas pelo Adobe Acrobat Reader com o certificado digital corporativo do Banco Master e o certificado individual de Allan Machado.
Vestígios digitais e edição de datas
A perícia encontrou divergências entre as datas apresentadas no corpo das CCBs e os registros criptográficos das assinaturas digitais: documentos com datas internas anteriores, por exemplo 21 de janeiro de 2025, exibiam registro de assinatura digital em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s, indicando que haviam sido produzidos naquele momento.
Para tentar ocultar indícios, a investigação aponta que funcionários também removeram ou apagaram visualmente campos de data e hora. Em conversas registradas no Teams em 20 de junho, Allan pediu a Moacir que excluísse informações de data e hora em termos de consentimento. A perícia identificou um exemplo prático: o Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal, que originalmente trazia registro de 24/02/2023 13:05, teve esse campo apagado em edição feita em 3 de julho de 2025, às 15h26. Ainda assim, metadados e registros de assinatura permitiram à perícia reconstruir a cronologia.
Montagem final e limitações
Depois de produzidas e alteradas as peças — CCBs, procurações e termos — os arquivos eram reunidos em um único PDF por operação, usando o PDF24. As pastas de rede organizavam os arquivos finais em nomes como Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras, Demanda BRB-Tirreno 299 amostras e Demanda BRB-Tirreno 119 amostras.
A tentativa de apagar rastros também se estendeu a comprovantes de transferência por SPB e PIX. Em 25 de junho de 2025, Allan discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a retirada de informações como evento, número de contrato e histórico — expressões como “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX” apareciam nos históricos — mas Romy informou que seria inviável realizar essa alteração manualmente em 2.700 comprovantes, revelando um limite prático do esquema.
Comunicação com auditoria e dirigentes
Mensagens internas mostram preocupação com a auditoria externa: em 23 de junho Fabrizio disse à Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria da Deloitte estava cobrando documentos; Alberto orientou classificar o problema como erro operacional na seleção. Além disso, amostras da documentação falsificada chegaram a instâncias superiores: em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, solicitou a Alberto Felix um “kit dos 300 com assinatura digital”, e arquivos com conjuntos documentais foram enviados à cúpula do banco.
O relatório técnico-pericial da Polícia Federal conclui que a operação combinou técnicas e ferramentas correntes — consulta a bancos de dados, mala direta no Word, códigos em C#, edição de PDFs, assinatura digital e junção final em PDF — com o objetivo de dar aparência de legitimidade a cessões de crédito consignado atribuídas à Tirreno Consultoria e repassadas ao BRB. Apesar das edições visuais, a estrutura digital dos arquivos deixou rastros que permitiram à perícia identificar a fabricação e posterior manipulação dos documentos.
Com informações de G1




