O que ocorreu: uma reportagem do G1 revelou que perfis no TikTok são usados como vitrine para promover a venda de material de abuso sexual infantil disponibilizado no Telegram. A apuração identificou, ao menos, 35 links publicados na plataforma que direcionam interessados a grupos, chats privados e bots de venda dentro do Telegram ou a sites externos que anunciam o acesso.
Como funciona a divulgação e a negociação: em muitos casos os vídeos postados no TikTok não exibem o conteúdo anunciado; em vez disso, os comentários e perfis vinculados trazem links que contêm a palavra “invite” seguida de um código. Ao inserir esse código, o usuário encontra prévias do material ou é levado a um bot ou conversa onde a negociação e a entrega dos arquivos ocorrem. Vendedores costumam enviar uma prévia por meio de um vídeo com visualização única que se apaga após a primeira reprodução; depois disponibilizam uma chave PIX para confirmação do pagamento e liberam os arquivos na conversa.
Preços e formas de pagamento: os pacotes encontrados pela reportagem variaram de R$ 10 a R$ 150. Em um dos sites monitorados, os valores em dólar incluíam US$ 25 (cerca de R$ 130), US$ 11,99 (cerca de R$ 62) e US$ 17,50 (cerca de R$ 90). Em outros anúncios, um pacote com 3 GB de vídeos e fotos foi oferecido por R$ 10, enquanto 15 GB eram vendidos por R$ 35. Há grupos que prometem acesso “vitalício” por R$ 20. Além do PIX, alguns vendedores aceitam criptomoedas como bitcoin e ether, e em outro site foram citados cartão de crédito e mecanismos de indicação no TikTok para liberar conteúdo sem custo.
Riscos e práticas dos criminosos: investigadores da Polícia Federal ouvidos pela reportagem afirmaram que o uso do PIX demonstra sensação de impunidade entre os criminosos, que costumam empregar contas de terceiros, laranjas, ex-parceiros ou, em casos relatados, até contas da própria vítima ou de familiares para receber pagamentos. Em uma interação captada, um anunciante afirmou usar a conta bancária de uma “menina” e garantiu que a transação não seria rastreada — informação considerada falsa pela PF. Em um dos anúncios, a chave PIX usada correspondeu a um e-mail com sufixo “@estudante.rs.gov.br”; a Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul informou que está em contato com a polícia para apurar o caso.
Resposta das plataformas: o Telegram informou ao G1 que proíbe a distribuição de material de abuso sexual infantil e disse ter removido mais de 339.760 grupos e canais relacionados ao tema em 2026, além de usar moderação humana e varredura de mídias contra um banco de dados de hashes, incluindo dados da Internet Watch Foundation e denúncias de ONGs. O TikTok afirmou que remove rapidamente esse tipo de conteúdo, bane permanentemente as contas envolvidas e reporta casos ao NCMEC; citou que, no primeiro trimestre de 2026, 99,8% dos conteúdos que violaram suas políticas sobre abuso sexual e exploração de jovens foram removidos proativamente.
Aspecto legal e penalidades: desde o início de agosto de 2026, uma lei federal endureceu penas para crimes envolvendo conteúdo de violência sexual contra crianças e adolescentes. A norma, sancionada em 6 de agosto de 2026 e originada em projeto do deputado Osmar Terra (MDB-RS), prevê pena de 4 a 10 anos de reclusão e multa para quem produz ou vende o material, e de 3 a 6 anos de reclusão e multa para quem adquire, possui ou mantém esse conteúdo. A legislação redefine o termo usado, classificando essas representações como “violência sexual contra criança ou adolescente” e passa a abarcar registros gerados por inteligência artificial.
Recomendações e canais de denúncia: a reportagem lembrou formas de denunciar casos de violência infanto-juvenil, como ligar para a Polícia Militar (190) em risco imediato, Samu (192) em emergências, delegacias especializadas, Disque 100 para denúncias anônimas, conselhos tutelares, Ministério Público e o WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656-5008. Profissionais de saúde devem realizar notificação compulsória em casos de suspeita.
As investigações e as medidas das plataformas prosseguem enquanto autoridades alertam para a ilegalidade da produção, venda e consumo desse tipo de conteúdo e para os mecanismos usados pelos criminosos para burlar controles.
Com informações de G1




