Cerca de 7 milhões de eleitores israelenses foram às urnas nesta terça-feira (27), em uma votação que ocorre pela primeira vez desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 e que pode encerrar o longo mandato de Benjamin Netanyahu, líder do Likud há 19 anos.
Além de Netanyahu, aparecem entre os favoritos o ex‑chefe do Estado‑Maior das Forças Armadas, Gadi Eisenkot, que concorre pelo partido Yashar, criado em 2025, e a aliança encabeçada por Naftali Bennett, do partido Juntos (Beyahad). Todos os três candidatos são classificados como linha‑dura nas questões militares e de segurança, rejeitam a criação de um Estado palestino e defendem o desarmamento do Hamas, embora apresentem diferenças sobre a expansão de assentamentos na Cisjordânia.
Como a apuração é feita com cédulas de papel, a expectativa é de que o resultado final só seja conhecido no fim da quarta‑feira (28).
Divisões entre os rivais
Eisenkot participou do gabinete de guerra formado após os ataques de outubro, mas deixou o governo de Netanyahu ao criticar a condução da operação na Faixa de Gaza. Ele acusa o primeiro‑ministro de ter negligenciado o resgate de reféns e de não ter tomado medidas preventivas, apesar de alertas prévios, acusações que Netanyahu nega.
Naftali Bennett, político com perfil religioso que já foi primeiro‑ministro entre 2021 e 2022, lidera uma coalizão que também representa uma alternativa real à permanência de Netanyahu no poder.
Posições sobre segurança e democracia
Especialistas ouvidos destacam semelhanças e diferenças entre os três principais nomes. A professora de relações internacionais Karina Stange Calandrin, do Ibmec São Paulo, ressalta que Netanyahu, Eisenkot e Bennett compartilham uma postura de linha dura em segurança, sendo vistos como “falcões” em oposição às “pombas” que defendem maior uso da diplomacia.
Já o professor Michel Gherman, do Departamento de Sociologia da UFRJ, observa que Netanyahu se distingue por reivindicar uma reforma que reduziria a autonomia do Judiciário e concentraria mais poder no Executivo, caracterizando‑o como representante de uma extrema‑direita com projeto autoritário.
Questão palestina e assentamentos
Os três favoritos rejeitam a criação de um Estado palestino, prevista pelo direito internacional, e, segundo Karina Calandrin, a proposta perdeu apoio dentro da sociedade israelense desde os ataques de 7 de outubro. Ela também afirma que partidos de extrema‑direita ligados ao atual governo, como os de Ben‑Gvir e Smotrich, estimularam a expansão de assentamentos na Área B da Cisjordânia, em desacordo com a legislação israelense, o que teria contribuído para episódios de violência contra famílias palestinas.
Calandrin avalia que os adversários de Netanyahu poderiam frear essa política na Área B e, potencialmente, reduzir tensões, além de possivelmente alterar a disposição de Israel para negociar com atores regionais como Catar e Egito, com os quais Netanyahu tem se mostrado reticente.
Durante a votação, a agência de notícias Wafa, da Cisjordânia, relatou incidentes envolvendo colonos e forças de segurança de Israel em territórios ocupados.
Michel Gherman acrescenta que Bennett mantém aproximações em comum com Netanyahu por ter origem no Likud, enquanto Eisenkot poderia optar por uma postura relativamente mais moderada, priorizando acordos com países árabes da região, embora não com os palestinos no momento.
Formação do governo
O sistema político israelense é parlamentarista, e o Knesset tem 120 cadeiras, o que obriga o partido vencedor a negociar apoios para formar uma coalizão majoritária. Analistas dizem que tanto Yashar quanto a aliança de Bennett provavelmente precisarão do respaldo de legendas árabes para alcançar a maioria, mas ambos os blocos já anunciaram que não farão alianças com partidos árabes israelenses, o que, segundo Karina Calandrin, dificulta a montagem de governo e pode impedir a formação de uma coalizão estável.
Michel Gherman aponta como alternativa um cenário em que partidos árabes votem contra Netanyahu sem ingressar formalmente no Executivo, resultando em uma coalizão de minoria.
Contexto e consequências do ataque de 7 de outubro
O ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 deixou cerca de 1,2 mil mortos e aproximadamente 200 reféns. Em retaliação, Israel conduziu uma operação militar de grande escala na Faixa de Gaza que destruiu ampla parte da infraestrutura civil do território e resultou na morte de mais de 75 mil pessoas, ação que foi qualificada por países e especialistas como genocídio. Membros do governo de Netanyahu chegaram a defender a saída da população palestina da região e a colonização israelense do território.
Nos últimos três anos, Israel também se envolveu em confrontos no Líbano, efetuou ataques na Síria e participou de ações contra o Irã em parceria com os Estados Unidos, enquanto a política de assentamentos na Cisjordânia ampliou‑se nos últimos anos.
O desenlace da eleição e as negociações que se seguirem definirão a composição do novo governo e as orientações em segurança e política territorial para o próximo período.
Com informações de Uberlandianofoco




