Conflito externo eleva preços, provoca racionamento em postos e motiva ação da PF
TRANSMISSÃO: Band
A guerra no Oriente Médio vem agravando a crise dos combustíveis no Brasil, com reflexos na inflação, nas decisões de política monetária e no abastecimento em diferentes regiões do país. A Polícia Federal deflagrou operação em 11 estados e no Distrito Federal para combater aumentos considerados abusivos nos preços, segundo autoridades.
Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que, desde o início do conflito, o litro do diesel subiu quase 24%, passando de R$ 6,03 para R$ 7,45 em média. A gasolina registrou alta de 8%, saindo de R$ 6,28 para R$ 6,78 o litro, em média.
No cenário internacional, sinais de possibilidade de cessar-fogo surgiram durante a semana por iniciativa dos Estados Unidos, mas Israel anunciou intensificação de ataques ao Irã e atingiu um centro de produção de mísseis da Marinha iraniana e uma usina de urânio. Essas ações levaram o barril do petróleo tipo Brent a se aproximar de US$ 120. Analistas alertam que a continuidade do conflito tende a pressionar ainda mais os preços se as restrições à oferta global persistirem.
Para tentar mitigar os efeitos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou um pacote de medidas que inclui incentivos ao setor e a isenção de tributos federais sobre o diesel. O governo também propôs que governadores zerassem o ICMS sobre combustíveis, medida recusada por parte dos estados. Em seguida, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, informou que um número “relevante” de unidades federativas aceitou uma segunda proposta: auxílio de R$ 1,20 por litro de diesel importado até o fim de maio, com custos divididos igualmente entre União e estados. Ceron não detalhou quais estados aderiram nem quantos.
Entidades do setor reportam episódios de falta de derivados em postos. A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) apontou que os preços praticados nas refinarias da Petrobras ficaram bem abaixo da paridade de importação. Em 24 de março, a defasagem média do diesel chegou a cerca de 65% — o equivalente a R$ 2,34 por litro abaixo da paridade — e na gasolina foi de aproximadamente 45%, ou R$ 1,13 por litro.
Com valores internos mais baixos que os do mercado internacional, importadores privados reduziram compras: o banco BTG Pactual estimou queda de cerca de 60% na atividade desses operadores. Hoje, cerca de 30% do diesel consumido no país é importado. Menos importações aumentam a dependência do fornecimento da Petrobras, elevando os riscos de falta de produto ou de novos aumentos de preço.
No Rio Grande do Sul, pesquisa do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sulpetro) indicou que 88% dos postos — entre bandeirados e independentes — receberam combustíveis apenas de forma parcial, em razão de cotas aplicadas pela Petrobras. O Sindcomb do Rio de Janeiro reportou instabilidade nas entregas, com postos de marca própria registrando desabastecimento. Em São Paulo, o Sincopetro afirmou que a rede independente, que representa 30% dos postos do estado, enfrenta dificuldades de abastecimento e de operação, pois fornecedores que importavam passaram a pagar mais pelo produto no exterior e vender mais barato no Brasil.
Para atender áreas afetadas, a Petrobras aumentou a oferta e promoveu leilões para parte de sua produção; análise do Banco do Brasil apontou que, em algumas localidades do Norte e Nordeste, os preços nesses leilões chegaram a custar até R$ 2,65 por litro acima do preço de referência. Sérgio Araújo, presidente da Abicom, disse que isso evidencia descompasso entre os valores praticados internamente e as condições do mercado internacional, o que leva as distribuidoras a repassar custos.
Especialistas também avaliam efeitos macroeconômicos. Daniel Cobucci, analista do BB Investimentos, afirmou que o pacote do governo pode estimular o processamento de petróleo no país e favorecer refinarias privadas, ao passo que o tributo sobre exportações deve reduzir ganhos extraordinários das petroleiras independentes e pode gerar disputas judiciais. Para analistas do BTG Pactual, o comportamento do petróleo está no centro das incertezas econômicas, com potencial para influenciar a inflação e as decisões sobre a taxa básica de juros, a Selic.
O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic para 14,75% ao ano na reunião de março, mas deixou de indicar novos cortes nas próximas reuniões e citou o conflito internacional como fator de incerteza em seu comunicado. Marcelo Rebelo, economista-chefe do Banco do Brasil, estimou que o choque do petróleo pode somar cerca de 0,6 ponto percentual ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026, ainda que o país tenha alguma capacidade de absorver o impacto por ser exportador líquido de petróleo — o que melhora o superávit comercial e os termos de troca. Apesar disso, o efeito chega ao bolso do consumidor, sobretudo por meio dos combustíveis e do transporte, que têm peso relevante na composição do IPCA.
Com informações de G1




