Uma ferramenta de tradução que virou sensação nas redes sociais reacendeu o debate sobre o chamado “corporativês” — o vocabulário repleto de jargões, muitas vezes em inglês, usado no ambiente de trabalho. O recurso em questão, chamado “LinkedIn Speak” e disponível no Kagi Translate, emprega inteligência artificial para transformar frases comuns em versões mais formais, no estilo corporativo.
Especialistas ouvidos pelo G1 dizem que o uso desses termos no Brasil reflete a globalização e a influência de multinacionais, sobretudo dos Estados Unidos, berço de muitas metodologias de gestão e inovação. Com o inglês consolidado como língua de negócios, expressões como ASAP, brainstorming, mindset, call, feedback e deadline passaram a integrar o dia a dia de empresas brasileiras.
Apesar de servirem como atalhos para resumir conceitos, esses termos podem dificultar a compreensão entre equipes e criar barreiras internas, avalia Eliane Aere, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-SP). Segundo ela, a intenção de padronizar a comunicação para agilizar processos frequentemente resulta em “ruído e exclusão” quando não há o chamado letramento corporativo — ou seja, quando os conceitos não são explicados adequadamente.
Aere afirma que a falta de entendimento leva a erros e retrabalho porque colaboradores gastam energia tentando interpretar o que a liderança quis dizer, prejudicando o clima organizacional e a produtividade. Ela cita o uso vago de palavras como “feedback”, que nos métodos de gestão tem significado estruturado ligado ao desenvolvimento, mas no cotidiano é tratado por vezes apenas como uma opinião. Para reduzir os problemas, recomenda-se privilegiar o português quando há tradução direta, explicar termos técnicos e estimular um ambiente em que perguntas não provoquem constrangimento.
O executivo Denis Caldeira, da área de tecnologia e negócios, também defende a adaptação da linguagem ao público. Ele alerta para o uso de expressões complexas para descrever ações simples — por exemplo, dizer “vou analisar seu relatório em detalhes” em vez de “vou fazer um deep dive no seu report” — e lembra que termos como “mindset de ownership” podem ser interpretados de formas distintas, gerando frustração se as expectativas não forem claras.
Caldeira acrescenta que a dificuldade de “falar a língua da empresa” pode afetar a saúde mental, provocando ansiedade e sensação de impostor. Ainda assim, reconhece que o corporativês faz parte da cultura de muitas organizações e que, na prática, é comum que colaboradores tentem se adaptar em vez de forçar mudanças na linguagem institucional.
Principais termos do “corporativês”
Alignment (Alinhamento) – quando todos estão na mesma página sobre objetivos e prioridades.
ASAP (o mais rápido possível) – indica urgência; o ideal é especificar um prazo.
Backlog (lista de pendências) – conjunto organizado do que precisa ser feito.
Benchmark (referência de mercado) – comparação com outras empresas para melhorar resultados.
Brainstorm (tempestade de ideias) – momento para sugerir ideias sem críticas.
Briefing (resumo do projeto) – documento ou conversa com as informações essenciais.
Budget (orçamento)
Call (reunião) – conversa, geralmente online, para tratar assuntos de trabalho.
Compliance (conformidade) – cumprimento de leis, normas e regras internas.
Deadline (prazo final)
Deep dive (análise aprofundada)
Deliverable (entregável) – resultado final de um trabalho.
Feedback (retorno) – orientação para melhorar trabalho ou desempenho.
Follow-up (acompanhamento) – verificação do andamento de uma demanda.
Go-live (entrar no ar) – momento em que um projeto começa a funcionar.
Hands-off (pouca intervenção) – gestor dá autonomia e interfere pouco.
Hands-on (mão na massa) – participação direta na execução.
Headcount (número de funcionários)
High level (visão geral)
Hiring (contratação)
Kick-off (início do projeto)
KPI (indicador de desempenho)
Layoff (demissão em massa)
Mindset (mentalidade)
Networking (rede de contatos)
OKR (metas e resultados)
Onboarding (integração)
One-on-one / 1:1 (reunião individual)
Ownership (responsabilidade)
Pipeline (fluxo de processos)
Quick win (ganho rápido)
Report (relatório)
Roadmap (plano futuro)
Sprint (período curto de trabalho)
Soft skills (habilidades comportamentais)
Stakeholder (parte interessada)
Top-down (de cima para baixo)
Touch base (alinhar rapidamente)
Turnover (rotatividade)
Workflow (fluxo de trabalho)
Com informações de G1




