Tarifas anunciadas em abril de 2025 alteraram fluxos comerciais e custos domésticos nos EUA
Em 2 de abril de 2025, o governo de Donald Trump anunciou uma política de “independência econômica” que estabeleceu uma sobretaxa mínima de 10% sobre todas as importações dos Estados Unidos, além de tarifas mais altas para 85 países que exportam mais para os EUA do que importam, com alíquotas que chegavam a até 50%. A medida, divulgada como parte do chamado “Dia da Libertação”, gerou impacto imediato nos mercados financeiros e levou parceiros comerciais a buscar negociações para mitigar os efeitos.
A Deutsche Welle (DW) analisou dados de comércio internacional do último ano para acompanhar a reação global e identificar beneficiários e prejudicados pelas novas regras. Em resposta ao anúncio, a Casa Branca decretou em 9 de abril uma suspensão temporária de 90 dias para tarifas acima da taxa básica de 10%, período durante o qual União Europeia, Vietnã, Reino Unido e outros tentaram negociar reduções. As conversas com a China seguiram turbulentas, com ameaças de represálias tarifárias que, em alguns momentos, chegaram a 125%.
Após prorrogações sucessivas da pausa de 90 dias, as tarifas específicas por país começaram a valer em 7 de agosto de 2025. O Brasil foi atingido por uma sobretaxa adicional de 40%, elevando a alíquota extra para 50% sobre as exportações brasileiras a partir de 6 de agosto; essa medida foi revogada pelo próprio presidente no fim de novembro.
Reação antecipada de importadores e realocação de cadeias de suprimento
A expectativa de tarifas elevadas já vinha desde o começo de 2025, quando Trump declarou que as tarifas tornariam os EUA “ricos”, durante a posse do segundo mandato em janeiro. Entre janeiro e março, importadores americanos ampliaram estoques, trazendo volume de bens 20% superior à média de 2022 a 2024 — um acréscimo estimado em 184 bilhões de dólares (R$ 949 milhões). Em bens específicos, como barras de ouro, as compras chegaram a cerca de 50 vezes o volume usual no início de 2025, totalizando aproximadamente 72 bilhões de dólares (R$ 371 bilhões), com suprimentos vindos principalmente da Suíça e também de Uzbequistão, Filipinas e Zimbábue.
Durante a suspensão de abril a julho, empresas norte-americanas buscaram fornecedores em países com menor risco tarifário. Segundo pesquisa de Haishi Li, da Universidade de Hong Kong, as importações comportaram-se como “água”, deslocando-se de países com tarifas altas para aqueles com taxas menores. Entre abril e julho de 2025, os EUA importaram 66 bilhões de dólares a menos da China em relação a anos anteriores. O Canadá, alvo de ameaças de 25%, teve redução de 24 bilhões de dólares nas exportações para os EUA, mas compensou parte das perdas ao redirecionar comércio com outros parceiros, ficando com exportações em 2025 apenas 1,6 bilhão abaixo de 2024.
Alguns países classificados entre os beneficiários pelas taxas de 10% — como Austrália e várias nações latino-americanas — aumentaram suas vendas aos EUA. Mesmo naqueles sujeitos a sobretaxas elevadas, houve incrementos de exportações: Vietnã, Tailândia e Taiwan enfrentaram tarifas recíprocas de 46%, 36% e 34%, respectivamente, e ainda assim os EUA importaram 34 bilhões de dólares a mais de Taiwan entre abril e julho.
Consequências domésticas e incerteza internacional
Analistas apontam que as tarifas não reverteram a deslocalização da produção para os EUA. Alex Durante, economista-sênior da Tax Foundation, afirmou que 2025 foi ruim para indústria e emprego, com setores protegidos por isenções (como computadores e itens ligados à inteligência artificial) se saindo melhor. O valor total das importações voltou a níveis habituais pouco depois do anúncio de abril, mas a arrecadação alfandegária cresceu substancialmente: o Tesouro dos EUA recolheu 287 bilhões de dólares em tarifas e impostos em 2025 — aproximadamente três vezes o usual —, representando cerca de 5% de todos os impostos arrecadados no país naquele ano. Dados preliminares apontam para 2026 com tendência de superação desse total.
Estudos indicam que o custo das tarifas foi majoritariamente repassado aos importadores americanos e, na prática, aos consumidores. A Tax Foundation estimou um impacto equivalente a cerca de mil dólares por domicílio americano em 2025, resultado de preços mais altos, redução de investimento, cortes de empregos ou de salários.
No cenário externo, os meses desde agosto de 2025 foram marcados por acordos fechados e desfeitos com rapidez e por novas ameaças tarifárias a países ou produtos específicos, aumentando a incerteza para exportadores. Em fevereiro, a Suprema Corte dos EUA derrubou a base legal das tarifas do “Dia da Libertação”. Mesmo com uma nova alíquota geral de 15% em vigor e esforços do governo para encontrar formas alternativas de aplicar tarifas mais elevadas, exportadores e importadores seguem tentando prever os próximos meses. Para enfrentar esse ambiente instável, especialistas recomendam que governos apoiem empresas na diversificação de mercados e cadeias de suprimentos, a fim de aumentar sua resiliência.
Com informações de G1




