Uma ofensiva conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e a retaliação iraniana que atingiu países do Golfo revelaram divergências públicas entre os membros do Brics e impediram até agora a emissão de uma declaração conjunta do bloco.
Atualmente composto por dez países — Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia — o Brics tem-se mostrado dividido sobre o episódio que estourou no fim de fevereiro e início de março de 2026. A Arábia Saudita costuma ser listada como integrante, mas ainda não oficializou sua entrada.
Enquanto Brasil, Rússia e China publicaram notas condenando a ofensiva israelo-americana contra alvos no Irã, parceiros como os Emirados Árabes Unidos e a Índia centraram-se na crítica às retaliações iranianas que atingiram territórios no Golfo. A África do Sul adotou postura mais comedida, expressando preocupação com a escalada do conflito e pedindo soluções diplomáticas.
O Irã afirma ter mirado bases americanas em países do Oriente Médio. “Não estamos atacando nossos vizinhos nos países do Golfo Pérsico, estamos atacando a presença dos EUA nesses países”, declarou o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Aragchi. Apesar disso, foram registrados danos em alvos sem relação direta com militares dos EUA, como aeroportos civis, refinarias e prédios de luxo.
Os ataques iranianos afetaram Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Omã, Jordânia, Síria, Iraque e Kuwait. A Arábia Saudita afirmou que “se reserva ao direito” de reagir ao que chamou de “ataque covarde do Irã”. Já os Emirados declararam que descartam ação militar e pediram que as Nações Unidas procurem uma solução.
Entre os membros do bloco, a Índia, que ocupa atualmente a presidência rotativa do Brics e mantém relações próximas com EUA e Israel, condenou publicamente as retaliações do Irã e informou que o primeiro‑ministro Narendra Modi conversou por telefone com o premiê israelense Benjamin Netanyahu em 1º de março, dizendo que transmitiu “preocupações da Índia” e reiterou “a necessidade de um rápido fim das hostilidades”. Modi não registrou contato com autoridades iranianas e sua posição gerou críticas da oposição indiana.
Rússia e China foram explícitas ao condenar os ataques de Israel e EUA. Vassily Nebenzia, representante russo nas Nações Unidas, classificou a ofensiva como “ato não provocado de agressão armada”. Pequim também afirmou que os ataques “violam o direito internacional”. No entanto, nem Moscou nem Pequim demonstraram intenção de ampliar ações além das condenações verbais.
O episódio contrasta com a reação do bloco em junho de 2025, durante a guerra de 12 dias iniciada por Israel contra o Irã, quando, sob presidência do Brasil, os dez países divulgaram nota conjunta classificando os ataques israelenses como “violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas” e pedindo “canais de diálogo” para desescalar a situação.
O Brics passou por expansão entre 2023 e 2025, incorporando seis novos membros: Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia. Na época, havia resistência de alguns integrantes, como o Brasil, que manifestou preocupação sobre perda de coesão. O assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assuntos internacionais, Celso Amorim, declarou que o grupo “não poderia se expandir indefinidamente”, pelo risco de perder “coesão”.
A diferença de posicionamentos entre membros fundadores e novos integrantes e a ausência de um comunicado coletivo até o momento evidenciam o racha no bloco provocado pelo conflito.
Com informações de G1




