O consumo das famílias brasileiras avançou no primeiro trimestre de 2026 mesmo com taxa de juros em patamares elevados, sustentado por renda mais alta e mercado de trabalho aquecido.
Os dados do Produto Interno Bruto (PIB) mostram que o consumo cresceu 1% na comparação com o trimestre anterior e 1,7% em relação ao mesmo período de 2025. A retomada ocorre após a taxa básica de juros ter alcançado o maior nível em 20 anos e iniciado um processo de queda.
Especialistas atribuem a continuidade do gasto ao emprego e ao aumento da renda. A taxa de desemprego no trimestre encerrado em abril foi de 5,8%, o menor índice para o período desde o início da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mesmo intervalo, o rendimento real habitual dos trabalhadores ficou em R$ 3.732, aumento de 5,3% frente ao ano anterior.
Para Adriana Beringuy, coordenadora de pesquisas domiciliares do IBGE, a manutenção das pessoas no mercado de trabalho tem ampliado a resistência do consumo aos efeitos de juros mais altos. Além do emprego, medidas públicas também contribuíram para o ganho de renda: o aumento real do salário mínimo, a elevação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e o programa Desenrola 2.0, voltado ao alívio de dívidas.
André Sacconato, assessor econômico da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FecomercioSP), destacou que as transferências de renda tendem a ser consumidas rapidamente em itens essenciais, como alimentação, vestuário e serviços.
O perfil do consumo também é impactado pela digitalização da economia. Juliana Trece, coordenadora do núcleo de contas nacionais do Ibre/FGV, aponta que parte do avanço dos serviços vem de áreas ligadas a tecnologia, internet e telefonia, além de segmentos como bares, restaurantes e viagens. Entre os bens duráveis, há crescimento do mercado de automóveis importados, com destaque para híbridos e elétricos; entre os não duráveis, aumenta o gasto com itens essenciais.
Apesar dos sinais positivos, especialistas alertam para o aumento do endividamento das famílias. O indicador de dívida do Banco Central chegou a 49,8% em março, 0,8 ponto percentual acima de março de 2025. A inadimplência em linhas com recursos livres alcançou 7,2% e o indicador geral de atrasos superiores a 90 dias subiu 1,2 ponto percentual em relação a abril de 2025 (6%).
Para 2026, a projeção do FGV Ibre é de crescimento do consumo das famílias de 2,2% no ano, acima dos 1,3% registrados em 2025. Juliana Trece observa que o Banco Central deve avançar com cautela na redução dos juros, que o mercado de trabalho aquecido ajudará a sustentar a demanda e que, por se tratar de um ano eleitoral, novas medidas de transferência de renda não podem ser descartadas.
Com informações de G1




