Pesquisa revela preferência por personagens fantásticos entre pequenos internados
Livros protagonizados por animais ou monstros com características humanas são os favoritos de crianças internadas, segundo o levantamento “Entre bichos e monstros”, conduzido por pesquisadoras da Unicamp e da Unifesp e publicado na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (RBEP). O estudo indica que, quando podem escolher, os pacientes entre 6 e 10 anos optam por relatos fantásticos em vez de narrativas centradas em personagens humanos.
O trabalho avaliou 174 crianças internadas em dois hospitais de perfis distintos: o Hospital de Clínicas da Unicamp, em Campinas, e o Hospital da Criança Rede D’Or São Luiz, em São Paulo. Apesar das diferenças socioeconômicas e dos variados contextos educacionais e familiares dos participantes, a preferência pelo fantástico se mostrou similar entre os grupos.
Lista de títulos mais citados
Em alusão ao Dia Nacional do Livro Infantil, celebrado em 18 de abril, o levantamento apontou os livros mais mencionados pelas crianças:
- “O ratinho, o morango vermelho maduro e o grande urso esfomeado” (Audrey e Don Wood)
- “O grande rabanete” (Tatiana Belinky)
- “Monstro Rosa” (Olga de Dios)
- “Macaco danado” (Julia Donaldson)
- “Carona” (Guilherme Karsten)
- “Pinóquio” (Carlo Collodi)
- “O monstro monstruoso e a caverna cavernosa” (Rosana Rios)
- “Um leão dentro de nós” (Rachel Bright)
- “Os músicos de Bremen” (Irmãos Grimm)
- “Gildo” (Silvana Rando)
Segundo Beatriz Burgo, pesquisadora da Unicamp e uma das autoras do estudo, personagens fantásticos criam um distanciamento emocional que permite à criança envolver-se com a narrativa sem confrontar diretamente questões humanas que, em contexto hospitalar, podem ser dolorosas. Esse afastamento funciona como uma espécie de válvula de escape segura, contribuindo para o acolhimento e a redução do sofrimento durante a internação.
As autoras também destacam a importância de devolver às crianças o poder de escolha. No estudo, os pequenos puderam manusear capas, sentir o formato dos livros e ouvir resumos curtos sem spoilers antes de decidirem qual leitura queriam. A experiência mostrou que, enquanto adultos costumam preferir obras com mensagens educativas, as crianças buscam narrativas que as transportem para longe da rotina hospitalar.
Para analisar como a estrutura textual influenciava a preferência, as pesquisadoras classificaram os livros em três grupos: Narrativas Simples (ações lineares e rápidas), Narrativas Complexas (personagens que erram e se transformam) e Poesias Narrativas (ritmo e rimas com efeito lúdico).
O relatório também relaciona a escolha de bichos e monstros ao fato de esses personagens humanizados facilitarem a elaboração de sentimentos — medo, saudade e ansiedade — permitindo que temas difíceis sejam processados de forma segura e lúdica.
Além do estudo, iniciativas como a Associação Viva e Deixe Viver atuam na humanização do atendimento com contação de histórias em hospitais. A organização, fundada por Valdir Cimino, tem quase 30 anos, é reconhecida como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, recebe apoio de empresas e conta atualmente com 721 voluntários que trabalham em 90 hospitais. Apenas em 2025 foram mais de 13,4 mil livros lidos na iniciativa.
O impacto observado pelos pesquisadores indica que leituras prazerosas podem melhorar o bem-estar físico e emocional das crianças durante a hospitalização, oferecendo momentos de imaginação e identificação em um ambiente muitas vezes desconhecido e ameaçador.
Com informações de G1




