O país se destaca por produzir petróleo offshore no Atlântico, cujo escoamento não depende das rotas ameaçadas do Golfo Pérsico. Essa vantagem geográfica torna o Brasil uma opção mais estável para importadores que tentam reduzir riscos ligados ao conflito. Segundo Adel El Gammal, especialista em geopolítica energética e secretário-geral da Aliança Europeia de Pesquisa Energética (EERA), é natural que consumidores busquem fornecedores menos sujeitos ao caos do Oriente Médio.
Em escala, o Brasil ocupa o nono lugar entre produtores globais e responde por aproximadamente 4% da produção mundial. Essa participação equivale a cerca de 4 milhões de barris por dia, volume comparável ao dos Emirados Árabes Unidos, segundo o especialista citado.
As compras externas refletem essa mudança. No primeiro trimestre, as exportações brasileiras de petróleo para a China dobraram, alcançando o recorde de US$ 7,2 bilhões, segundo dados do governo brasileiro. Hoje, mais de 60% das exportações da Petrobras têm como destino a China, e, de acordo com Adel El Gammal, a participação chinesa nas vendas brasileiras de petróleo passou de aproximadamente 40% antes da crise para cerca de 70% atualmente. As grandes estatais chinesas CNPC e CNOOC já atuavam no Brasil e intensificaram parcerias diante do conflito no Oriente Médio.
Além da posição geográfica, a qualidade do óleo brasileiro é outro atrativo. As grandes reservas do pré-sal, localizadas em águas ultraprofundas na costa do Rio de Janeiro, produzem petróleo leve e com baixo teor de enxofre — características próximas às do Brent e mais fáceis de refinar do que óleos pesados, como o venezuelano. Samuele Furfari, professor de Geopolítica da Energia na Universidade Livre de Bruxelas, lembra que a margem equatorial, da costa amazônica brasileira até a Guiana, é vista pelo governo como uma área promissora para novos achados.
Porém, há limites estruturais para uma expansão rápida. O país enfrenta restrições na capacidade de refino, que precisa crescer junto com a produção. Especialistas apontam ainda a baixa elasticidade do setor: aumentar significativamente a produção em curto prazo exige investimentos bilionários e projetos que se estendem por anos. Conforme Furfari, decisões feitas hoje terão efeito a longo prazo no setor petrolífero.
No plano político, o governo Lula tem dado sinais favoráveis à indústria, mantendo a Petrobras na exploração dos campos offshore e anunciando a retomada da perfuração em Urucu, na Amazônia, onde havia poços paralisados há mais de uma década. Essa estratégia convive com a intenção do presidente de avançar na transição energética, refletindo o dilema entre metas climáticas e necessidades econômicas de um Estado produtor de petróleo.
Mais amplamente, analistas veem a crise como catalisadora de uma transformação no mercado global: a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP é citada como exemplo de um cenário menos centrado em um pequeno grupo de atores. Ainda assim, a janela de oportunidade para o Brasil tem limites, já que outros países — como Guiana, Angola, Moçambique, Azerbaijão e Canadá — também buscam elevar sua participação no mercado. O setor permanece cíclico e sensível a desdobramentos geopolíticos.
Com informações de G1




