Em ano de eleições, o Dia Internacional da Checagem de Fatos, celebrado nesta quinta-feira (2), destaca a atuação de jornalistas e pesquisadores que investigam a veracidade de conteúdos na internet. Especialistas ouvidos pelo Paranaíba Mais apontam que a atividade se torna mais complexa com o avanço da inteligência artificial e com o funcionamento dos algoritmos das redes sociais, que ampliam alcance de mensagens sem distinguir origem ou qualidade.
Quem e o que
Tamiris Volcean, uma das idealizadoras da AletheiaFact.org, organização brasileira sem fins lucrativos dedicada ao enfrentamento da desinformação, relata que o projeto nasceu da inquietação sobre tornar a checagem mais acessível. A proposta, iniciada em 2020, foi além da produção de checagens: passou a desenvolver uma metodologia e uma infraestrutura voltadas à democratização do “saber checar”, com o objetivo de dar autonomia informacional a cidadãos e coletivos locais.
Ana Paula Teixeira, professora de jornalismo na UFU e pesquisadora sobre desinformação, ressalta o papel das checagens diante de um ecossistema em que usuários também são produtores de conteúdo e os algoritmos privilegiam materiais com grande engajamento, inclusive quando gerados por inteligência artificial ou concebidos como brincadeira, mas que terminam por disseminar informações enganosas.
Como é feita a checagem
A checagem descrita por Tamiris é apresentada como um procedimento investigativo estruturado: começa pelo monitoramento para identificar temas, atores e narrativas com potencial de impacto; segue pela seleção de pautas com base em relevância social, risco e alcance; e avança para a investigação, que inclui formulação de perguntas, busca por fontes, cruzamento de dados e consulta a especialistas. Todo o trabalho é registrado em relatório e submetido a revisão por pares, o chamado cross-checking.
Ana Paula menciona que as metodologias se inspiram em iniciativas internacionais, como a First Draft, ligada a Harvard. Agências de checagem frequentemente mantêm canais de denúncia e usam chatbots ou assistentes com inteligência artificial para auxiliar a população. A AletheiaFact, por exemplo, opera um assistente virtual no Instagram para receber denúncias e conectar usuários à plataforma de verificação; a ferramenta é descrita como colaborativa e de código aberto, permitindo adaptação e uso amplo.
Tamiris afirma que a organização incorporou IA ao processo, sobretudo para monitoramento e identificação de padrões de desinformação, mas destaca que a tecnologia serve para escalar o fluxo, não para substituir o julgamento humano. O modelo adotado é híbrido: automação para organizar trabalho e validação humana baseada em critérios metodológicos rigorosos.
Limites e estratégias
Especialistas alertam que a desinformação transcende a mera falsidade factual e envolve valores culturais, crenças e formas de interpretar o mundo, o que reduz a eficácia exclusiva da checagem quando o público já sustenta convicções firmes — fenômeno associado ao conceito de “pós-verdade”. Tamiris acrescenta que o problema costuma ser difuso: nem sempre se trata de uma declaração isolada, mas de um conjunto de conteúdos repetidos e adaptados que moldam percepções.
Outro desafio apontado é o modelo tradicional de checagem, muitas vezes centralizado e reativo, com limitações para atuar em realidades locais e num contexto de tecnologias em avanço. Para enfrentar isso de forma consistente, a AletheiaFact propõe atuar em três frentes: infraestrutura (ampliar acesso a ferramentas e metodologias), educação midiática (formação crítica de cidadãos) e mudança cultural de longo prazo para valorizar a verdade como bem público. A organização trabalha com universidades e com o Comitê Nacional de Democratização da Checagem de Fatos nesse sentido.
Cuidados práticos
Quanto às práticas cotidianas, a idealizadora da iniciativa recomenda que qualquer pessoa verifique origem de informações, desconfie de conteúdos apelativos e compare fontes. Um manual da PUC-RS citado no levantamento orienta conferir a fonte da informação, checar datas, observar outros pontos de vista, reparar na ortografia e ter cautela com informações vindas de pessoas próximas que não sejam especialistas. Agências de checagem online continuam disponíveis para consulta pública.
A notícia termina com a constatação de que a checagem de fatos segue sendo ferramenta essencial à democracia, ainda que limitada por fatores culturais e tecnológicos; sua ampliação depende de ferramentas acessíveis, educação e esforço coletivo.
Com informações de Paranaibamais




