Seca histórica deixa comunidades sem água, alimento e renda
Morador de Chácaras, no Departamento de Choluteca, sul de Honduras, o agricultor Juan Estanislao Muñoz afirma ter 61 anos e nunca ter vivido uma estiagem tão severa. Ele relata que a primeira safra entre maio e agosto foi perdida e que, sem chuvas no ciclo final de agosto a dezembro, não haverá produção de milho. “Tenho uma vaca, mas, agora, ela não está comendo pasto, mas sim terra, folhas… O gado aqui está morrendo de sede e de fome”, diz Muñoz.
Segundo a Organização das Nações Unidas, mais de 10 milhões de pessoas vivem no Corredor Seco; mais de 70% da população rural está na pobreza e mais de um milhão de crianças apresentam atraso de crescimento por desnutrição. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) projeta que, somente em Honduras, o número de pessoas em insegurança alimentar pode subir de 1,4 milhão para 1,9 milhão — um acréscimo de cerca de 500 mil pessoas.
Em declaração à BBC News Mundo, a diretora regional do PMA para a América Latina, Lena Savelli, descreveu rios que antes abasteciam famílias transformados em leitos de terra e pedras. Em visita a comunidades de Choluteca, ela encontrou agricultores com perdas significativas de milho e feijão.
O PMA estima que, em toda a América Central, 4,2 milhões de pessoas podem entrar em insegurança alimentar em razão do El Niño. Para a América Latina e o Caribe como um todo, a agência prevê pelo menos 16 milhões de pessoas adicionais com oferta insuficiente de alimentos. Em escala global, o El Niño pode elevar o total de pessoas em insegurança alimentar aguda de 225 milhões para 274 milhões, segundo o PMA — um aumento estimado em 49 milhões.
Impactos locais: perdas agrícolas, gado e migração
Relatos de agricultores em Honduras, Guatemala e El Salvador descrevem vendas de animais, redução drástica da produção leiteira e colheitas destruídas. Em Los Piches, no departamento de Valle (Honduras), muitas famílias denunciavam que, desde junho, a seca se intensificou e gerou fome e perda da renda habitual. Darwin Cruz, de San Lorenzo, teve de vender dois animais leiteiros e outra vaca morreu; restaram três que produzem apenas 25% do leite usual.
Um relatório de agosto assinado por organizações como Oxfam e Ação contra a Fome pesquisou 58 municípios na Guatemala, Honduras e El Salvador e constatou que, das cerca de 73 mil famílias que semearam milho no primeiro ciclo de 2026, mais de 70 mil relataram perdas. Dessas, 78,6% perderam entre 75% e 100% da safra. O documento também aponta que o retorno de migrantes deportados tem aumentado a pressão sobre recursos já escassos.
Respostas emergenciais e necessidades de médio prazo
Desde março, em coordenação com governos locais, o PMA antecipou assistência a mais de 400 mil pessoas no Corredor Seco, com pagamentos em dinheiro (equivalentes a US$ 150 por mês, cerca de R$ 785) e distribuição de alimentos para evitar medidas desesperadas como venda de gado ou redução drástica do consumo. Atualmente, a agência fornece assistência em dinheiro a mais de 470 mil pessoas afetadas na região.
Casos individuais ilustram a crise: Lorenzo Carranza Hernández e sua mulher, Rosa Arístides, que viveram de milho e feijão por anos, perderam a estabilidade que tinham — Lorenzo diz que antes colhia 60 a 70 cargas de milho e gerenciava três silos; atualmente, o casal depende de ajuda e enfrenta dificuldades para comprar remédios e alimentar os netos. Rosa relata poços vazios e crianças descalças na comunidade.
Governos centro-americanos ativaram medidas de emergência como distribuição de alimentos e linhas de crédito; o governo de El Salvador, em parceria com a FAO, entregou “kits agrícolas” com sementes de milho mais resistentes à seca. Especialistas do PMA destacam que intervenções antecipadas são mais eficazes e defendem que ações emergenciais sejam acompanhadas de medidas de médio e longo prazo, como sistemas de alerta precoce, gestão de recursos hídricos e proteção social.
Com informações de G1




