Quem e o que: O caso da aposentada Maricarmen Abascal, de 87 anos, retirada de maca de seu apartamento no centro de Madri após um processo promovido pela proprietária, tornou-se símbolo da crise de moradia na Espanha. Abascal fechou um acordo com a empresa proprietária e poderá voltar ao imóvel, mas o episódio desencadeou uma onda de protestos em todo o país.
Quando e onde: Milhares de manifestantes saíram às ruas da Espanha no sábado, 3 de outubro de 2026, após o governo não obter aprovação no Parlamento, na sexta-feira (2/10), de uma legislação emergencial sobre habitação que visava proteger inquilinos.
Contexto e causas
Pesquisas apontam que o acesso à moradia preocupa há anos os espanhóis: em 2024, um em cada quatro famílias relatou dificuldade para conseguir ou manter moradia, segundo a Fundação FOESSA. Entre os jovens de 26 a 34 anos, 47,3% ainda moravam com os pais, indicou o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) em abril, citando a incapacidade de comprar ou alugar devido aos custos elevados.
Entre 1997 e 2008, a Espanha construiu cerca de cinco milhões de residências — aproximadamente o dobro da demanda da época. A bolha imobiliária e a crise financeira de 2008 estancaram o crédito e levaram ao fechamento de muitas construtoras e à paralisação de projetos. Especialistas consultados apontam que o setor foi profundamente reduzido e que a produção anual atual — cerca de 90 mil residências — é insuficiente para suprir a necessidade.
O Banco da Espanha estima um déficit habitacional na ordem de 750 mil residências, número que pode ultrapassar um milhão nos próximos dois anos se medidas não forem adotadas. Antes da crise, construíam-se quase 14 residências por mil habitantes; hoje, o ritmo caiu para duas por mil, enquanto a referência em outros países é de cerca de quatro por mil.
Demanda em alta e pressão sobre aluguéis
Desde 2021, a formação de lares aumentou, impulsionada pela migração — em torno de 250 mil lares líquidos por ano, principalmente de Colômbia e Venezuela. Essa combinação de oferta reduzida e demanda crescente elevou preços: desde 2015, valores de venda e aluguel subiram 80%, enquanto os salários aumentaram 30%, de acordo com o INE. Em algumas cidades, o aluguel médio alcança o equivalente a R$ 7 mil por mês, cerca de 98,7% do salário médio dos jovens.
Especialistas alertam que o aluguel é a porta de entrada para quem chega a uma cidade e, diante da escassez de oferta, os preços sobem de forma mais acentuada nesse segmento. Além disso, parte do parque imobiliário não está destinada à moradia habitual: muitos proprietários optaram por alugar para turistas ou por curtos períodos.
Participantes do mercado e estatísticas
Fundos de investimento entraram com força no mercado imobiliário espanhol e são alvo de críticas por aquecerem preços com grandes aquisições, embora representem, segundo o economista José García Montalvo, cerca de 5% do mercado. O Observatório do Aluguel registra cerca de 2,4 milhões de espanhóis que possuem imóveis para locação.
O INE aponta também 3,8 milhões de residências vazias, muitas localizadas em áreas com baixa demanda, onde a ocupação dificilmente volta. Quanto aos despejos, a imprensa noticiou média de 45 por dia no primeiro trimestre de 2026, mas o Conselho Geral do Poder Judiciário registra queda nos números anuais: de 39.096 em 2021 para 24.520 em 2025, lembrando que a estatística inclui imóveis não residenciais.
O turismo intensifica a pressão: em 2025, a Espanha recebeu 96,8 milhões de visitantes estrangeiros, aumento de 3,2% em relação a 2024, segundo a Organização Mundial do Turismo, tornando o país o segundo mais visitado no mundo depois da França.
Em resposta à mobilização pública, o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciou medidas que incluíam suspensão de determinados despejos até 2030 e prorrogação de contratos de aluguel, mas as alterações não foram aprovadas no Congresso.
O episódio envolvendo Maricarmen Abascal reacendeu o debate sobre como conciliar oferta, regulação e proteção social no mercado de moradia espanhol.
Com informações de G1




